domingo, 23 de abril de 2017

OS FANÁTICOS QUE, POSTA DE PARTE A ESCRITURA, ULTRAPASSAM A REVELAÇÃO E SUBVERTEM A TODOS OS PRINCÍPIOS DA PIEDADE - João Calvino

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C A P Í T U L O IX

1. APELO FANÁTICO AO ESPÍRITO EM DETRIMENTO DA ESCRITURA 

Ademais, aqueles que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados pela loucura. Ora, surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata. Eu, porém, gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absurdamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo, e os demais fiéis na Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente. E, na verdade, assim fora predito pela boca de Isaías. Pois o povo antigo não cinge ao ensino externo como se lhe fosse uma cartilha de rudimentos, onde diz: “Meu Espírito que está em ti, e as palavras que te pus na boca, de tua boca não se apartarão, nem da boca de tua descendência, para sempre” [Is 59.21], senão que ensina, antes, haver de ter a nova Igreja, sob o reino de Cristo, esta verdadeira e plena felicidade: que seria regida pela voz de Deus, não menos que pelo Espírito. Do quê concluímos que, em nefando sacrilégio, estes dois elementos que o Profeta uniu por um vínculo inviolável são separados por esses biltres. A isto acresce que Paulo, arrebatado que foi até ao terceiro céu [2Co 12.2], entretanto não deixou de aprofundar-se no ensino da lei e dos profetas, assim como também exorta a Timóteo, mestre de singular proeminência, a que se devotasse a sua leitura [1Tm 4.13]. E digno de ser lembrado é esse elogio com que adorna a Escritura: “é útil para ensinar, admoestar, redargüir, a fim de que os servos de Deus se tornem perfeitos” [2Tm 3.16]. De quão diabólica loucura é imaginar como se fosse transitório ou temporário o uso da Escritura que conduz os filhos de Deus até a meta final! Em seguida, desejaria que também me respondessem isto: porventura beberam de outro Espírito além daquele que o Senhor prometia a seus discípulos? Ainda que se achem possuídos de extrema insânia, contudo não os julgo arrebatados de tão frenético desvario que ousem gabar-se disso. Mas, ao prometê-lo, de que natureza declarava haver de ser esse Espírito? Na verdade, um Espírito que não falaria por si próprio; ao contrário, que lhes sugeriria à mente, e nela instilaria o que ele próprio havia transmitido por meio da Palavra [Jo 16.13]. Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada através do evangelho. 

2. A BÍBLIA É O ÁRBITRO DO ESPÍRITO

 Do quê facilmente entendemos isto: se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto a ouvir a Escritura. Assim é que Pedro até louva [2Pe 1.19] o zelo daqueles que estão atentos ao ensino profético, ensino que, todavia, após resplandecida a luz do evangelho, poderia parecer ter sido cancelado. Muito pelo contrário, se algum espírito, preterida a sabedoria da Palavra de Deus, nos impingir outra doutrina, com justa razão deve o mesmo ser suspeito de fatuidade e mentira [Gl 1.6-9]. E então? Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz [2Co 11.14], que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido através de sinal de absoluta certeza? E de forma intensamente clara, ele nos tem sido apontado pela voz do Senhor, não fora que, por sua própria vontade, estes infelizes porfiassem por extraviar-se para sua própria ruína, enquanto buscam o Espírito por si próprios e não por ele mesmo. Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem estar sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominioso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformidade com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação; aliás, se agradar mais, até mesmo a servidão. Quando, porém, se compara consigo próprio, quando em si mesmo se considera, quem dirá com isso que ele é impingido com ofensa? Com efeito, confesso que, desta forma, o Espírito é submetido a um exame, contudo um exame através do qual ele quis que sua majestade fosse estabelecida entre nós. Ele deve ser plenamente manifesto assim que nos adentra o coração. 
 Entretanto, para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre. Isto não lhe é derrogatório, a não ser, talvez, quando julgamos dever ele abdicar e degenerar sua dignidade. 

3. A BÍBLIA E O ESPÍRITO SANTO NÃO SE DISSOCIAM 

Quando, porém, nos movem acusação, de que nos apegamos demasiadamente à letra que mata, nisto incorrem na pena de desprezarem a Escritura. Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete que haverá de gravar sua lei nas entranhas dos fiéis e lhas imprimir no coração [Jr 31.33]. Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangido o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida [Fp 2.16], a converter as almas, a dar sabedoria aos símplices etc. [Sl 19.7]. Ademais, ainda nessa mesma passagem [2Co 3.8], o Apóstolo chama sua pregação de ministério do Espírito, sem dúvida significando que o Espírito Santo de tal modo se junge a sua verdade que expressou nas Escrituras, que manifesta e patenteia seu poder, onde então, afinal, se rende à Palavra a devida reverência e dignidade. Tampouco isto contradiz o que foi dito pouco atrás: que a própria Palavra não nos é absolutamente certa, a não ser que seja confirmada pelo testemunho do Espírito. Pois o Senhor ligou entre si, como que por mútuo nexo, a certeza de sua Palavra e a certeza de seu Espírito, de sorte que a sólida religião da Palavra se implante em nossa alma quando brilha o Espírito, que nos faz aí contemplar a face de Deus, assim como, reciprocamente, abraçamos ao Espírito, sem nenhum temor de engano, quando o reconhecemos em sua imagem, isto é, na Palavra. De fato assim sucede. Deus não deu a conhecer aos homens a Palavra com vistas a apresentação momentânea para que logo em seguida a abolisse com a vinda de seu Espírito; pelo contrário, enviou o mesmo Espírito, pelo poder de quem havia ministrado a Palavra, para que realizasse sua obra mediante a confirmação eficaz dessa mesma Palavra. Dessa forma, Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús [Lc 24.27, 45], não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios por si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras. De modo semelhante Paulo, enquanto exorta aos tessalonicenses a que não extingam o Espírito, não os arrebata às alturas  a vãs especulações à parte da Palavra, mas imediatamente acrescenta que as profecias não deveriam ser desprezadas [1Ts 5.19, 20]. Com o quê acena, não dubiamente, que a luz do Espírito é sufocada assim que as profecias são tratadas com desprezo. O que esses inflados evnqousiastai,[$nthousiastaí – entusiastas; fanáticos] dirão acerca destas coisas, os quais reputam esta como sendo apenas a sublime iluminação, quando, abrindo mão despreocupadamente e dizendo adeus à divina Palavra, não menos confiantes que temerários, agarram sôfregos qualquer coisa que hajam concebido enquanto dormitam? Certamente que aos filhos de Deus lhes fica bem a sobriedade, os quais, ao mesmo tempo que, sem o Espírito de Deus, se vêem privados de toda a luz da verdade, todavia não ignoram que a Palavra é o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos fiéis a iluminação de seu Espírito. Pois não conhecem outro Espírito além daquele que habitou e falou nos apóstolos, de cujos oráculos são continuamente convocados a ouvir a Palavra.

sábado, 22 de abril de 2017

O Galardão da Graça - Prof. Herman Hanko

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E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra (Ap. 22:12).
Pergunta: "Uma pessoa salva, digamos, há apenas um ano pode ter avançado na vida cristã bem mais do que alguém salvo há sessenta anos. O galardão no céu depende do estágio alcançado e do total de serviço acumulado ao longo dos anos?"

Eu dei a este artigo o título "O Galardão da Graça" porque a pergunta tem a ver com a explicação que os teólogos Reformados e Presbiterianos têm consistentemente dado ao galardão que os crentes recebem por suas obras. Ele é chamado de o galardão da graça porque, embora, de fato, um crente seja recompensado por suas obras, essa recompensa é pela graça somente.

A situação descrita na pergunta—um homem convertido há apenas um ano estando bem mais avançado na vida cristã do que outro convertido há sessenta—é uma exceção, e não uma regra. Podem existir pessoas assim, mas a forma comum na qual Deus opera Sua salvação no coração do Seu povo é mediante progresso e crescimento na santificação. Contudo, seja qual for o caso, a resposta à pergunta não é afetada.

Que seja estabelecido que as nossas obras são de fato recompensadas. A Escritura ensina isso em mais de um lugar (e.g., Mt. 5:12; 6:4, 6, 18; 10:41; 16:27; Lucas 6:23, 35; I Co. 3:8; II Co. 5:10; Hb. 11:6). Um incentivo a praticar boas obras enquanto estamos aqui na Terra é o galardão que receberemos na glória.

É também o ensino da Palavra de Deus que o galardão será em proporção às obras. Esse é claramente o significado das palavras do Senhor em Apocalipse 22:12, de que todos serão recompensados "segundo a sua obra." O Senhor dispensará as recompensas de uma forma totalmente justa. (Isso implica também o castigo dos ímpios no inferno de acordo com suas obras.) Podemos deduzir disso que não há desapontamento no céu, e que cada um de nós ficará satisfeito com a recompensa que receber.

Além disso, as boas obras recompensadas no céu não são necessariamente as obras extraordinárias que alguns realizam. Em sua obra de reforma, Lutero virou a Europa de cabeça para baixo. Essa foi de fato uma grande obra. Mas existem obras agradáveis a Deus que passam despercebidas pelos homens, obras de grande valor e dignidade. 

O coração partido de um pecador penitente, chorando em seu quarto, é de maior dignidade que muitos feitos poderosos. O cuidado fiel de uma mãe piedosa pela sua família é de valor bem maior que um sermão poderoso de um ministro enamorado com suas próprias habilidades. Deus pesa as obras em escalas diferentes das que usamos.
Mas o que eu disse até agora não é de forma alguma a história toda. 

Penso que o resto da história pode ser melhor contada citando-se a Confissão Belga 24: 

"Então, fazemos boas obras, mas não para merecermos algo. Pois, que mérito poderíamos ter? Antes, somos devedores a Deus pelas boas obras que fazemos e não Ele a nós. Pois, ‘Deus é quem efetua em’ nós ‘tanto o querer como o realizar, segundo sua boa vontade’ (Filipenses 2:13). Então, levemos a sério o que está escrito: ‘Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer’ (Lucas 17:10). Contudo, não queremos negar que Deus recompensa as boas obras; mas, por sua graça, Ele coroa seus próprios dons." 

Através da graça de Deus, Ele coroa Seus dons! Esse é o galardão da graça! Várias idéias são ensinadas aqui.

(1) As boas obras que realizamos e que Deus recompensa são graciosamente nos dadas como um dom. Deus opera em nós tanto o querer como o realizar a Sua boa vontade (Fp. 2:13). Somos devedores a Deus por nossas boas obras, não Ele a nós.

(2) Nunca, sob quaisquer circunstâncias, merecemos algo de Deus. Nem mesmo Adão, antes de cair, poderia ter merecido algo da parte de Deus. Toda a idéia de mérito humano é contrária às Escrituras.

(3) O galardão que recebemos também nos é dado pela graça. Esse é o motivo de ser chamado "o galardão da graça." É, nas palavras da nossa confissão, "por Sua graça que Ele coroa Seus próprios dons."

(4) Cada um recebe um galardão inteiramente justo, ajustado e apropriado para ele ou ela.

Para explicar isso adicionalmente, o professor de catecismo da minha juventude dizia que Deus cria vários copos de vidro de muitos tamanhos diferentes. Eles são criação Sua; o tamanho não é arbitrariamente determinado. Na glória, Ele enche cada copo de vidro até o topo. Cada copo fica cheio e não pode receber mais, mas cada um deles é de um tamanho diferente.

A metáfora é como segue. Em Sua obra de salvação, Deus muda e forma cada um do Seu povo, de acordo com a Sua vontade. Ele faz isso pela obra de salvação, pela qual cada um de nós realiza boas obras, obras que revelam a glória de Deus na salvação. No céu, todo santo será recompensado por causa das suas obras por Deus, de forma que a obra iniciada nesta vida será finalizada no céu, onde a glória de Deus brilha em cada santo para o louvor do nome de Deus.

No plano perfeito de Deus, a obra da salvação nesta vida é perfeitamente realizada para preparar cada santo para o seu lugar na glória. Cada pedra—a fim de usar outra metáfora—é moldada e formada por Deus através de todas as experiências de vida, a fim de se encaixar perfeitamente no templo de Deus construído em toda a sua glória no céu (Ef. 2:20-23). Assim, cada um em seu lugar, de acordo com o galardão da graça, exibe em sua própria forma e em conexão com todos os eleitos a glória do Deus que salva a igreja inteira e edifica o Seu próprio templo. Tudo é sempre para a glória de Deus e louvor de Sua graça!



1E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em maio/2008.
Tradução:Felipe Sabino

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Espírito Santo: Autor da Escritura - John Piper

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Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

2Pedro 1. 20-21


Em 27 de Junho de 1819, Adoniram Judson batizou seu primeiro convertido em Burma. Sua esposa, Ann Hasseltine, descreveu como Moung Nau respondeu à Escritura: “Poucos dias antes eu estava lendo com ele as palavras de Cristo no Sermão do Monte. Ele estava profundamente impressionado e dotado de uma solenidade incomum. ‘Estas palavras,’ disse ele, ‘tomaram-me as entranhas; fizeram-me tremer.’” Deus falara através do profeta Isaías, 2.700 anos atrás e disse, “… mas, para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra…Ouvi a palavra do SENHOR, vós, os que a temeis” (Isaías 66:2, 5).

O IMPACTO DA BÍBLIA NA HISTÓRIA

Por dois mil anos, a Bíblia tem se entranhado em diversos homens e os feito tremer—primeiro, de medo, porque revela nossos pecados, então com fé, porque revela a Graça de Deus. Um único versículo, Romanos 13:13, convenceu e converteu o imoral Agostinho. Para Martinho Lutero, um monge miserável, a luz irrompeu através de Romanos 1:17. Diz ele,
Noite e dia ponderei até ver a conexão entre a justiça de Deus e a declaração de que “o justo viverá da fé”. Então eu tomei para mim que a justiça de Deus é essa retidão pela qual, através da graça e pura misericórdia, Deus justifica-nos pela fé. Daí em diante senti que havia renascido e partido por portas abertas para o paraíso. (Here I Stand, p. 49)
Para Jonathan Edwards, foi 1 Timóteo 1:17. Ele disse,
O primeiro exemplo, do qual me recordo, deste tipo de doce deleite interior em Deus e nas coisas divinas, que desde então muito vivenciei, foi na leitura dessas palavras, 1 Tim. 1:17: “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!” Ao ler essas palavras, veio à minha alma … uma impressão da glória do Ser Divino; uma nova sensação diferente de qualquer coisa que eu, antes, experimentara. Nunca quaisquer palavras da Escritura me pareceram como essas. (Works, vol. 1, p. xii)
De século a século, do Egito à Alemanha, da Alemanha à Nova Inglaterra, a Bíblia vem trazendo pessoas a Cristo, renovando-as.

A BÍBLIA COMO A PALAVRA DO HOMEM E A PALAVRA DE DEUS

Por quê? Por que a Bíblia tem esta relevância e poder contínuos? Acredito achar a resposta em nosso texto - 2 Pedro 1:20–21: “Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” Esta passagem ensina que, quando você lê a Escritura, o que você está lendo não vem somente de um homem, mas também de Deus. A Bíblia é uma obra de muitos homens diferentes. Mas também é muito mais que isto. Sim, homens falaram. Eles falaram com sua própria linguagem e estilo. Contudo, Pedro menciona duas outras dimensões do seu falar.
Falar da parte de Deus, Movido pelo Espírito Santo
Primeiro, eles falaram da parte de Deus. O que tinham a dizer não era meramente vindo de suas limitadas perspectivas. Eles não são a origem da verdade que falam; eles são o canal. A verdade é a verdade de Deus. Seu significado é o significado de Deus.
Segundo, não é apenas o que eles falaram da parte de Deus, mas como eles falaram isto, controlados pelo Espírito Santo. “Homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. Deus não revelou simplesmente a verdade aos autores da Escritura e então partiu, esperando que eles a comunicassem corretamente. Pedro diz que, ao comunicarem-na, eles foram conduzidos pelo Espírito Santo. A confecção da Bíblia não foi deixada às habilidades de comunicação meramente humanas; o próprio Espírito Santo levou o processo à sua completude.
Um livro recente de três ex-professores meus (LaSor, Hubbard, and Bush, Old Testament Survey, p. 15) expressa-o da seguinte maneira,
Para assegurar precisão verbal, Deus, na comunicação de sua revelação, tem de ser verbalmente preciso e a inspiração tem de se estender às próprias palavras. Isto não significa que Deus ditou todas as palavras. Em vez disso, seu Espírito penetrou tanto a mente do escritor, que ele escolheu de seu próprio vocabulário e experiência precisamente aquelas palavras, pensamentos e expressões que exprimiam a mensagem de Deus com precisão. Neste sentido, as palavras dos autores humanos da Escritura podem ser vistas como a Palavra de Deus.
Não apenas Profecias, mas Toda a Escritura
Alguém poderia dizer que 2 Pedro 1:20–21 só tem a ver com profecia, e não com toda a Escritura do Antigo Testamento. Mas observe atentamente como ele argumenta. No verso 19, Pedro diz que uma palavra profética cresceu em sua certeza por sua experiência com Jesus no monte da transfiguração. Então, nos versículos 20–21, ele dá suporte à autoridade dessa palavra profética dizendo que ela é parte da Escritura. Versículo 20: “Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.” Pedro não está dizendo que só as partes proféticas da Escritura são inspiradas por Deus. Ele está dizendo, nós sabemos, que a palavra profética é inspirada precisamente porque é “profecia da Escritura”. A afirmação de Pedro é que tudo quanto está na Escritura é de Deus, escrito por homens que foram conduzidos pelo Espírito Santo.
Ele ensina o mesmo que Paulo em 2 Timóteo 3:16: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Nenhuma das Escrituras do Antigo Testamento veio de um impulso humano. Toda ela é verdade vinda de Deus, pois homens movidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus.
E quanto aos escritos do Novo Testamento?
Mas e quanto ao Novo Testamento? Experimentaram os apóstolos e seus associados próximos (Marcos, Lucas, Tiago, Judas, e o escritor de Hebreus) inspiração divina ao escreverem? Foram eles “conduzidos” pelo Espírito Santo para falarem da parte de Deus? A Igreja cristã sempre disse que sim. Jesus disse aos seus apóstolos em João 16:12–13: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Então o apóstolo Paulo confirma isso quando diz, do seu próprio ensino apostólico, em 1 Coríntios 2:12–13: “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais”. Em 2 Coríntios 13:3 disse que Cristo falava através dele. E em Gálatas 1:12 ele disse : “Porque eu não o recebi [o evangelho], nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.” Se tomarmos Paulo para nosso modelo sobre o que significa ser apóstolo de Cristo, então seria justo dizer que o Novo Testamento, como o Antigo, não veio meramente de homens mas também de Deus. Os escritores do Antigo e Testamento falaram ao serem movidos pelo Espírito Santo.
O Espírito Santo é o Autor Divino da Escritura
A doutrina que emerge é esta: O Espírito Santo é o autor divino de toda a Escritura. Se esta doutrina é verdadeira, então as implicações são tão profundas e de tão longo alcance que cada parte de nossas vidas deveria ser afetada. Eu quero falar sobre essas implicações nesta manhã. Contudo, para nosso próprio fortalecimento e para aqueles ainda hesitantes às voltas de comprometerem-se com a doutrina, deixe-me primeiro esboçar a base de nossa persuasão.

CHEGANDO A UMA FÉ RACIONAL NAS ESCRITURAS

A maioria das pessoas chega a uma confiança racional na Bíblia como Palavra de Deus de uma maneira semelhante a essa. Isso acontece em três estágios.
1. Nós Somos Culpados Diante de Deus
Primeiro, o testemunho de nossa consciência, a realidade de Deus sob a natureza e a mensagem da Escritura vêm juntas ao nosso coração para nos dar a inescapável convicção de que somos culpados diante de nosso Criador. Essa é uma convicção racional porque a persuasão de que há um Criador sobre este mundo, e a persuasão de que somos culpados por não honrá-lo e agradecê-lo como devemos, não são saltos irracionais no escuro; elas são forçadas sobre nós pela nossa experiência e pensamento sincero sobre o mundo.
2. Jesus Ganha Nossa Confiança
O segundo passo em direção de uma convicção racional de que a Bíblia é a Palavra de Deus, é que Jesus Cristo é mostrado a nós. Alguém lê, ou nos conta a história desse homem incomparável que falou e agiu de modo tão maior que o de um homem. Vemos a autoridade que ele reivindicou para perdoar pecados, e comandar demônios, e controlar a natureza, vemos a pureza de seu ensino moral, sua rendição completa à vontade de Deus, sua calma brilhante sob interrogatório, sua fúria justa contra hipócritas, sua ternura com as crianças pequenas, sua paciência com os humildes que o buscavam, sua submissão inocente à tortura, e ouvimos dos seus lábios as palavras mais doces, mais imprescindíveis, jamais pronunciadas: “Eu dou a minha vida em resgate por muitos.” E então pela força auto-autenticada de seu caráter e poder incomparáveis, Jesus ganha nossa confiança e segurança, e nós o tomamos como Salvador de nosso pecado e Senhor de nossa vida. E isso não é uma convicção irracional. É a maneira como todos vocês tomam decisões racionais sobre a quem vocês vão confiar sua vida. É naquela babá que vocês vão confiar para cuidar de suas crianças, ou naquele advogado para dar bons conselhos, ou naquele amigo para guardar seu segredo? Você olha, escuta, e finalmente é persuadido (ou não) de que aquela pessoa é um terreno firme para sua confiança.
3. Seguimos o Ensino e o Espírito de Jesus
Uma vez que o caráter e o poder de Jesus capturaram nossa confiança, então ele se torna o guia e a autoridade para todas nossas futuras decisões e convicções. Então, o terceiro passo no caminho de uma convicção racional de que a Bíblia é a Palavra de Deus, é deixar o ensino e o espírito de Jesus controlar como nós avaliamos a Bíblia. Isso acontece de pelo menos duas maneiras. Uma é que aceitamos o que Jesus ensina sobre o Antigo e o Novo Testamento. Quando ele diz que a Escritura não pode falhar (João 10:35) e que nem uma letra, ou um ponto, passará da lei até que tudo seja cumprido (Mateus 5:18), concordamos com ele e baseamos nossa confiança no pelo Testamento sobre sua confiabilidade. E quando ele escolheu doze apóstolos para fundar sua igreja, dando-lhes sua autoridade para ensinar, e prometeu enviar seu Espírito para guiá-los na verdade, concordamos com ele e creditamos os escritos desses homens com a autoridade de Cristo.
A outra maneira que o ensino e o espírito de Jesus controlam nossa avaliação da Bíblia, é que reconhecemos, nos ensinamentos da Bíblia, os multi-coloridos raios de luz, refratados através do prisma de Cristo, em quem chegamos a confiar. E assim como Cristo nos capacitou a extrair sentido da nossa relação com Deus e trazer harmonia a esta, também os muitos raios da sua verdade, em toda parte da Bíblia, nos capacitam a extrair sentido de centenas de nossas experiências de vida, e ver o caminho para a harmonia. Nossa confiança na Escritura cresce à medida que compreendemos que Jesus afirmou isto e à medida que compreendemos que os ensinos ali contidos são tão incomparáveis quanto Jesus mesmo. Progressivamente, eles nos ajudam a decifrar os quebra-cabeças da vida: casamentos em falência, crianças rebeldes, vício em drogas, nações em guerra, o retorno das folhas na primavera, as insaciáveis petições do nosso coração, o medo da morte, o nascimento de crianças, a universalidade do louvor e da culpa, o predomínio do orgulho, e a admiração da auto-negação. A Bíblia confirma sua origem divina repetidamente ao nos fazer compreender nossa experiência no mundo real e ao apontar o caminho para a harmonia.
Espero, daqui por diante, que uma das doutrinas que nós nutramos em na Igreja Batista Bethlehem, com força suficiente para morrer por ela (e viver por ela!) é a de que o Espírito Santo é o autor divino de toda a Escritura. A Bíblia é a Palavra de Deus, não meramente a palavra de homens.

IMPLICAÇÕES PARA TUDO NA VIDA

Ah, se tivéssemos o dia todo para falar sobre as implicações maravilhosas dessa doutrina! O Espírito Santo é o autor da Escritura. Portanto, ela é verdadeira (Salmo 119:142) e totalmente confiável (Hebreus 6:18). É poderosa, operando seu propósito em nossos corações (1 Tessalonicenses 2:13) e não retornando vazia para Aquele que a enviou (Isaías 55:10–11). É pura, como prata refinada na fornalha sete vezes (Salmo 12:6). É santificadora (João 17:17). Dá vida (Salmo 119:37, 50, 93, 107; João 6:63; Mateus 4:4). Torna sábio (Salmo 19:7; 119:99–100). Dá prazer (Salmo 19:8; 119:16, 92, 111, 143, 174) e promete grande recompensa (Salmo 19:11). Dá força aos fracos (Salmo 119:28) e conforto aos perturbados (Salmo 119:76), guia aos perplexos (Salmo 119:105) e dá salvação aos perdidos (Salmo 119:155; 2 Timóteo 3:15). A sabedoria de Deus nas Escrituras é inexaurível.
Quão preciosos para mim são teus pensamentos, ó Deus! Quão vasta é a soma deles! Se eu fosse contá-los, seriam mais que os grãos de areia.

Revisão: Pr. Me. Plínio Sousa. Tradução: Ademir A. Moreira.

Cativo à Razão - Vincent Cheung

O CAOS SEM LEI DE SARTRE - GORDON H. CLARK

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O Mundo de hoje, é intensamente hostil à mensagem da Bíblia. Há várias formas desta hostilidade. Existencialismo, se secular ou religioso, mantem que não há nenhuma explicação racional para qualquer coisa, e que os valores da vida são o que cada indivíduo escolha ser. Deus não impôs nenhuma lei moral à humanidade e cada indivíduo é totalmente livre.

O LADO SECULAR

Embora Jean Paul Sartre seja um secular, em vez de um existencialista religioso, alguma atenção deve ser dada a ele por causa da sua posição proeminente no movimento e porque ele tem coisas importantes a dizer sobre teologia. 
O princípio básico do existencialismo, diz Sartre, é que a “existência precede a essência.” Essa frase antiintelectualista significa que o "Aristotélico O Que precede o Aristotélico O Que é." Por exemplo, se um carpinteiro deseja fazer um gabinete, ele deve primeiro saber o que é um gabinete, que tamanho e forma particular de gabinete ele pretende fazer. Lá o O Que é  precede o Que; a essência precede a existência. Então, também, a ideia Cristã de Deus inclui a noção de que Deus sabia o que ele ia criar antes de criá-lo. A doutrina da Providencia atribui a Deus um conhecimento ou plano da história que antecede os eventos. Isto é o que Sartre nega. Para ele não existe uma plano pré existente da história, nem mesmo uma determinada natureza humana, criada a imagem de Deus, que todo homem deve ter; e é claro, não há pecado original que faça-nos pecadores antes mesmo de nós nascermos. Muito pelo contrário, cada homem faz de si mesmo o que quer. O "O Que é segue O Que." 

Para Sartre, o mundo é um caos sem lei na qual o homem foi lançado. Quando lançado pela primeira vez no mundo, o homem é também um caos, um O Que sem um O Que É. Assim, a existência humana se origina em um nada para e culmina em um outro nada – morte. O ser do homem, portanto, é uma antecipação da morte ou nada. Por esta razão a categoria básica do ser é ansiedade ou pavor. Este pavor da morte pode levar um homem a buscar refúgio em um ser inautêntico. Isso quer dizer, uma pessoa tenta esquecer a morte afundando-se nos costumes e hipocrisias da sociedade. Ele se torna uma massa – homem em vez de se tornar um indivíduo existente. Ele se satisfaz em escravidão, em mediocridade; ele aceita o nível de todos os outros e assim escapa à necessidade de tomar decisões e ser responsável por eles. 

Contra essa mediocridade, o existencialista chama-nos a decidir , a fazer uma escolha para vivermos autenticamente, ser um indivíduo, comprometer-nos a ser.

Esta escolha humana, eles dizem, é totalmente livre. Sem uma natureza humana e sem Deus, não há nada para ligar o homem. Não há lei moral; tudo é permitido. O homem é a única fonte para seus próprios valores. Ele escolhe seus próprios motivos. Mesmo depois que um homem criou sua própria essência pela escolhas de valores, ele ainda é completamente livre e pode escolher novamente e alterar seu sim geral. Ele pode também se tornar outro homem por uma total conversão. O homem, portanto, é sempre livre e nunca determinado. 
Deixe-nos por um momento, parar e pensar. Se eu crio valores por minha livre escolha, nem mesmo a mediocridade ou a hipocrisia se tornam um valor se eu escolher? Como pode haver má fé se eu deliberadamente escolho e como pode haver auto engano se minha escolha cria os valores?

RELATIVISMO VICIOSO

A questão da lógica é crucial. O poder da mensagem do evangelho depende disso. Se a fé pode frear a lógica, então Brunner pode acreditar em um par de contradições, eu posso aceitar um par e você pode frear a lógica em terceiro lugar. Você não pode dizer que sou um absurdo, não posso dizer que você é um absurdo, uma vez que ambos retêm o direito de nos contradizer a qualquer momento que desejarmos. Aqui está o relativismo em toda a sua viciosidade. Nada é absolutamente verdade. Nada é verdade para todas as pessoas. Todos são livres para criarem suas próprias verdades e valores. Até mesmo o cristianismo ortodoxo pode ser verdadeiro para algumas mentes medievais! Mas se cada individuo faz sua própria “verdade” por paixão e emoção, decisão livre e encorajamento pessoal, tudo se torna caos e anarquia. Cristo morreu e não morreu; ele ressuscitou e não ressuscitou; Há uma vida além do túmulo e o túmulo é o nosso destino final. Isso, meus amigos cristãos, é insanidade.
Não podemos ler Bultmann ou Heidegger, mas as ideias desses homens permeiam publicações populares. Poucas congregações escapam de suas influências. Similarmente poucas congregações escapam da influência do comunismo, a nova moralidade, cientismo e romanismo. Estamos, portanto, em um mundo hostil. Estamos no meio de lobos. Não há possibilidade de sermos transportados para o céu em camas floridas de facilidade. Devemos lutar para ganharmos o prêmio e navegar pelos mares sangrentos. 
A dificuldade, o sofrimento, o perigo não valeria a pena se estivéssemos a pregar a nosso própria experiencia existencial, mas isso não fazemos; pelo contrário, proclamamos a mensagem que Deus revelou para usar em Sua palavra infalível.


Texto extraído de http://gordonhclark.reformed.info/sartes-lawless-chaos-by-dr-gordon-h-clark/
Tradução: Igor Wirandé
Revisão: Edu Marques