segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Criação da Mulher - Adauto Loureço

Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. (Gênesis 2.21-22)

O texto é muito rico em detalhes científicos. Observe que a nomenclatura científica não ocorre por uma razão  bem  simples: o texto  visa  educar  qualquer pessoa,  independente do nível cultural, social e econômico. E essa narrativa o faz com grande precisão e com grande facilidade de compreensão.
Primeiramente, Deus fez o homem cair em profundo sono.
Duas perguntas fundamentais precisam ser respondidas: (1) por quê?; e (2) como?
A razão pela qual Deus fez Adão cair em profundo sono é bastante simples: Ele seria operado (a  remoção  de  uma das suas costelas). Como Deus fez isso também não é um mistério. Nós usamos essa mesma técnica nas cirurgias: anestesia geral.
Anestesia vem da palavra grega (anaesthesis), sem sensação. Desde 1842 a anestesia é  usada em procedimentos cirúrgicos no ocidente, embora esse método já fosse conhecido e utilizado nos tempos antigos por povos da Mesopotâmia (sumerianos, babilônicos e medo-persas), pelos egípcios e chineses. O ópio era o principal agente anestésico. A anestesia faz que o paciente caia em sono profundo, bloqueando temporariamente o seu sistema sensorial.
O primeiro passo foi Deus anestesiar Adão. O procedimento cirúrgico utilizado pelo  Senhor Deus está cientificamente correto. Em segundo lugar, o Senhor Deus removeu uma das costelas de Adão. Existe uma razão  muito especial da escolha desse tipo de material e não de um outro.
Encontramos no sistema ósseo humano a medula óssea, também conhecida como tutano. Esse tecido de aparência gelatinosa preenche a cavidade interna de vários ossos. Ele também é uma fábrica de elementos relacionados com o sangue, como as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos  (glóbulos  brancos) e os trombócitos (plaquetas).
A medula óssea vermelha, encontrada, por exemplo,  nas costelas, contém células-tronco (células estaminais). Essas células são células-tronco multipotentes, que podem diferenciar-se numa variedade de tipos de células. Células-tronco  constituem  o  material fundamental  para  o processo de clonagem humana. Como o objetivo principal do Senhor Deus era trazer à existência  um  outro  ser  vivo  semelhante  a  Adão, Ele usou as células-tronco encontradas na medula óssea vermelha da costela removida de Adão, para fazer o primeiro clone humano: Eva.
O segundo passo foi obter o tipo de material genético correto, do local correto, para a criação de Eva. As escolhas do tipo de material genético e do local onde esse material foi obtido, feitos pelo Senhor, estão cientificamente corretas.
Em terceiro lugar, o Senhor fechou o lugar da costela removida com carne. Cirurgias  de reconstrução e correção, conhecidas como cirurgias plásticas, são realizadas na índia desde 800 a.C.
Um procedimento muito  comum  nesse  tipo  de  cirurgia  é o de  auto-transplantação, onde  tecidos,  órgãos  ou  proteínas de uma parte do corpo são transplantados em uma outra parte. Esse tipo de cirurgia é utilizado frequentemente para minimizar ou eliminar deformidades físicas.
O terceiro passo de Deus foi utilizar-se desse processo para eliminar qualquer deformação  física  decorrente  da  remoção  da costela. O procedimento cirúrgico adotado está cientificamente correto.
Em quarto lugar, Deus transforma a costela que Ele removera de Adão (material genético) e a transforma em uma mulher. Como mencionamos  acima, células-tronco são o material básico necessário para a clonagem de  um  novo ser vivo a partir do material do doador.
O processo de clonagem propriamente dito nada mais é que a produção de um novo indivíduo criado a partir do material genético de um doador. Animais e plantas são clonados frequentemente pelos cientistas ao redor do mundo. Adão foi o doador e Eva foi o novo ser vivo clonado.
O quarto passo foi Deus utilizar o material genético de Adão para produzir um ser semelhante a ele. O procedimento genético adotado está cientificamente correto.
E  em  quinto e último  lugar, Deus transforma o material genético masculino em material genético feminino.
O  ser  humano  possui  um  par de  cromossomos  responsável pela  determinação  do sexo. Masculino e feminino são as  duas únicas possibilidades sexuais produzidas por esse par. Seres humanos do sexo masculino possuem o par XY. Seres humanos do sexo feminino possuem o par XX.
O  cromossomo Y humano possui cerca de 60  milhões de pares de base.3 Ele é passado de pai para filho. O cromossomo X humano possui cerca de  153  milhões de pares de base.
Sendo que  a  mãe possui o par de  cromossomos XX e o pai o par XY, é fácil perceber que é o material genético do pai que determina o sexo da criança. A mãe contribui apenas com um dos dois cromossomos X que ela possui. Já o pai pode contribuir tanto com o cromossomo Y quanto com o X.
Adão foi criado com o par XY. Ele era do sexo masculino. Para que Eva  fosse criada, Deus precisaria  apenas  duplicar geneticamente o cromossomo X de Adão, formando o par XX. Esse procedimento de alteração  genética é conhecido pela ciência como engenharia genética.
O último passo foi o Senhor Deus duplicar geneticamente o cromossomo X de Adão. O procedimento genético utilizado está cientificamente correto. Uma pequena  nota, digna de reflexão. Se Deus tivesse apenas clonado, mas não alterado o material genético de Adão, então no jardim do Éden estariam apenas Adão e Ivo, em vez de Adão e Eva. Seria impossível que a ordem de Deus fosse cumprida: … crescei e multiplicai!


NOTA:
  1. Existem quatro bases diferentes, conhecidas como nudeotídeos, encontradas no DNA (ácido desoxirribonudeico): adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). A adenina forma um par de base com a timina e a guanina forma ou um outro par de base com a dtosina.


Autor: Adauto Lourenço
Trecho extraído do livro Gênesis 1 e 2, pág 190-194. Editora: Fiel
Via:Reformados21

domingo, 22 de janeiro de 2017

Calvino, os Puritanos e o Trabalho - Elienai B. Batista (1/2)





Primeira de duas palestras proferida pelo Pastor Elienai Bispo Batista por ocasião do XXIII Simpósio Reformado Os Puritanos 2014, Maragogi, Alagoas, Brasil.

Via:Canal do YouTube Os Puritanos

O Dever do Sexo no Casamento - Rev. Angus Stewart

Sexo fora do casamento é pecado; todos os cristãos sabem isso, e os incrédulos também. Não ter sexo no casamento (sob as circunstâncias ordinárias) também é pecado; talvez nem todos estejam cientes disso. De acordo com I Coríntios 7:3-5, sexo no casamento é uma dívida. Negligenciar ou recusar fazer sexo com o seu cônjuge é roubo, uma quebra do oitavo mandamento: "Não furtarás."

A Bíblia tem coisas importantes para dizer sobre solteirismo, casamento e sexo. Dessa forma, a igreja deve ensinar esses assuntos, bem como as verdades da Santa Trindade, o fim dos tempos e a graça irresistível. A igreja ensina esses assuntos em sermões, salas de catecismo, aulas para noivos e (como agora) mediante escritos. Pais sábios também falam com seus filhos sobre essas questões, como fez Salomão com seu filho em Provérbios (e.g., Pv. 2:16-19; 5:3-23; 6:24-35; 7:6-27; 9:13-18).

Sem dúvida, a maneira, bem como o conteúdo, do ensino cristão sobre casamento e sexo é bem diferente daquela do mundo. Não objetivamos instigar ou excitar os santos, nem somos pudicos, simplesmente ignorando o assunto. Em vez disso, proclamamos o ensino bíblico sobre sexualidade com pureza e autoridade.
Jesus Cristo é Senhor, e isso significa que Ele é Senhor do casamento e do lar do casal também. Ele tem coisas a dizer aqui. Assim, nosso objetivo é a glória de Deus em Jesus Cristo e a edificação dos santos. Dentro dessa estrutura e com esse espírito, consideremos o dever do sexo no casamento.

I Coríntios 7 fala de marido e esposa dando a "devida benevolência" um ao outro. "O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma sorte a mulher ao marido." "Devida benevolência" aqui não significa que marido e esposa devem mostrar um ao outro apenas bondade em geral. Considere o contexto. Um propósito do casamento é "evitar a fornicação" (2). No casamento, seu cônjuge tem autoridade sobre o seu corpo, especialmente no leito matrimonial (4). A "incontinência" no versículo 5 refere-se a falta de auto-controle sexual. Assim, "devida benevolência" em I Coríntios 7:3 refere-se especificamente à bondade devida ao cônjuge na relação sexual.

Essa "benevolência" sexual é "devida" ao seu cônjuge. É uma dívida, algo que você deve ao seu marido ou esposa. Não é meramente um favor que você faz caso seu cônjuge tenha sido bom. Obviamente alguns, por causa da idade avançada ou debilidade, etc., são incapazes de cumprir essa dívida, mas cônjuges cristãos normais devem pagar esse débito. Você está pagando esse débito ao seu marido ou esposa?
Pessoas casadas são donos das roupas e comidas que compram, e também da relação sexual com o seu cônjuge: "A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher" (4). Seu cônjuge tem autoridade sobre o seu corpo sexualmente falando; não você.

Alguns podem objetar que eles não se lembram de jurar entregar a autoridade dos seus corpos nos votos de casamento. Provavelmente isso não foi mencionado em tantas palavras, mas a natureza do casamento como uma união de "uma só carne" implica que seu cônjuge tem autoridade sobre o seu corpo sexualmente, e não você. Esse é um pensamento cristão sóbrio. Sem dúvida, isso reflete também o grande casamento que nossos casamentos devem refletir. A igreja, a noiva de Cristo, é dona do seu próprio corpo? Não, a noiva de Cristo está sob a posse e autoridade de Cristo, seu esposo.

Estamos agora numa posição mais adequada para analisar o pecado de um casamento sem sexo (assumindo que o sexo é fisicamente possível). É roubo não entregar o que é devido. É roubar o seu próximo mais chegado, a saber, o seu próprio cônjuge. É defraudar ele ou ela (5). Isso introduz a idéia de engano e fraude. O casamento, por definição, inclui dar-se ao seu cônjuge. Ao recusar se entregar sexualmente, como prometeu, você comete traição. Isso está fundamentado no egoísmo, o desejo de fazer o que quiser com o seu corpo e não o que o seu cônjuge quer. Esse egoísmo brota da incredulidade, a falta de fé na união vital e espiritual entre Cristo e a Sua igreja que o seu casamento e relação sexual deveriam retratar.
O pecado tem conseqüências. Deus julgará e castigará você por ele. Seu cônjuge será ferido, seriamente ferido. Recusar seus desejos sexuais é algo cruel. Ignorar ou ser indiferente para com ele ou ela é impiedade. Cristo não trata assim a Sua esposa! Seu cônjuge se sentirá insatisfeito, trapaceado e provavelmente se tornará (pecaminosamente) amargo e ressentido. Assim, seu casamento sofrerá. A intimidade física de todos os tipos se secará e você perderá a intimidade emocional e espiritual também.

Pecados maritais impendem as suas orações (I Pedro 3:7). As orações nas devoções em família se tornam difíceis; as orações ficam sem resposta. A leitura da Escritura também se torna um dever árduo. Eventualmente isso pode levar a devoções em família infreqüentes ou à completa negligência.
Nenhuma relação sexual no casamento também torna o seu cônjuge mais vulnerável ao pecado de adultério Lembre-se: um dos propósitos do casamento é evitar a fornicação (2; cf. Pv. 5:18-20). Satanás tem um interesse no seu leito matrimonial. Ele anda em derredor, "buscando a quem possa tragar" (I Pedro 5:8). Não vos defraudeis!

I Coríntios 7:3-5 ensina parte do chamado de maridos e esposas. Eles não devem permitir que se tornem sexualmente indiferentes para com seus cônjuges. Não há lugar para escusas mentirosas: "Estou com dor de cabeça". Isso não é uma licença para explorar ou abusar do seu cônjuge. Nem é um incentivo à tirania masculina. O marido é o cabeça que deve "alimentar" e "sustentar" a sua esposa (Ef. 5:29). I Coríntios 7:3-4 enfatiza a igualdade entre marido e mulher: o marido deve dar a "devida benevolência" à sua esposa, e "igualmente" a esposa ao seu marido (3), e o marido tem autoridade sobre o corpo da sua esposa, "também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher" (4). Assim, no sexo – como em todas as coisas, exceto no pecado—o marido e a esposa cristãos devem procurar agradar um ao outro, e não a si mesmos, pois o amor "não busca os seus interesses" (I Co. 13:5).

Qual então é o papel do sexo no casamento? Primeiro, sexo não é a única coisa no casamento. Êxodo 21:10, uma lei regulando (embora não requerendo ou aceitando) a poligamia, declara: "Se lhe tomar outra, não diminuirá o mantimento desta, nem o seu vestido, nem a sua obrigação marital." A "obrigação marital" (Ex. 21:10) é a "devida benevolência" (I Co. 7:3), ou relação sexual. Providenciar comida e roupa para a esposa também é mencionado. (Incidentalmente, por que jovens cristãos estão namorando ou noivando, se não estão numa posição de sustentar uma esposa, mesmo num futuro previsto?) Ainda mais fundamental, os maridos devem amar suas esposas e as esposas devem se submeter aos seus maridos (Ef. 5:22-33). Além do mais, os maridos devem governar suas esposas em amor e elas devem ser auxiliadoras de seus maridos (Ef. 5:22-33; Gn. 2:20s.). Isso envolve 101 deveres de um para com o outro.

Segundo, o sexo não é a principal coisa no casamento. A coisa principal é o relacionamento pactual no Senhor (Ml. 2:14). Aqueles que fazem do sexo a coisa principal no casamento ficarão dolorosamente desapontados.
Terceiro, sexo não é a base para o casamento. A verdade da Palavra de Deus é o fundamento do casamento cristão. A amizade pactual de um pelo outro é baseada sobre essa unidade na doutrina da Palavra de Deus em Cristo.
Onde então o sexo entra no casamento? Primeiro, deve haver o amor de Deus em seu coração por seu cônjuge. Fluindo desse amor, e como uma expressão desse amor, está a bênção da relação sexual. Assim, embora o sexo no casamento seja um chamado e um dever, ele é mais que um dever. É uma coisa alegre e prazerosa, deliberada e natural, uma expressão de amor mútuo e um retrato da união de Cristo com a Sua noiva, a igreja.
Há uma exceção ao dever do sexo no casamento (além daquele da impossibilidade física) se três condições forem satisfeitas. Primeiro, deve ser "por consentimento mútuo" (I Co. 7:5)—não uma decisão unilateral do marido ou da esposa, mas de ambos. Segundo, deve ser "por algum tempo" (5)—não para o resto de suas vidas, ou por anos, mas por um período específico. Mais tarde eles devem se "ajuntar outra vez" sexualmente (5). Terceiro, a abstinência sexual deve ser "para vos aplicardes ao jejum e à oração" (5)—não porque eles simplesmente estavam com vontade. Deus colocou certo peso em seus corações, de forma que os prazeres de comer e ter sexo são postos de lado por um tempo, para que possam se focar melhor em buscar a Deus. Todas as três condições devem ser satisfeitas—consentimento mútuo, curta duração e propósito religioso (para oração e jejum)—para um período de abstinência sexual. Onde todas as três condições não são satisfeitas, a "devida benevolência" da relação sexual permanece.

I Coríntios 7:3-5 contém várias lições vitais. Primeiro, a relação sexual é a regra no casamento (e a exceção é rara e curta). Segundo, Maria não foi uma virgem perpétua. O Concílio de Trento de Roma lançou um anátema sobre todos aqueles que negassem que Maria jamais teve relação sexual com o seu marido, José, após o nascimento de Cristo, mas Deus requer que as esposas dêem a "devida benevolência" aos seus maridos (3-5). Terceiro, a passagem assume que um casal cristão pode escolher jejuar e orar juntos. Você alguma vez já desistiu de comida e sexo, para buscar a face de Deus com maior fervor? Quarto, não há nada vergonhoso ou impuro numa relação sexual. Aparentemente, alguns em Corinto enalteciam a virgindade até o céu e/ou exigiam o celibato no casamento, visto que a relação sexual era vista como de certo modo questionável em santidade ou pureza. "Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula" (Hb. 13:4). Essa visão deturpada sobre casamento e sexo não é encontrada apenas no Romanismo. John Wesley ensinou a superioridade da virgindade ao casamento, e em geral aconselhava contra o casamento. Ele foi irremediavelmente influenciado por sua leitura dos pais da igreja primitiva e de autores católico-romanos (que lançam dúvidas sobre a bondade do casamento e do sexo). Mesmo quando Wesley se casou, ele mostrou um mau exemplo, pois, em geral, negligenciava sua esposa e o relacionamento deles era "distante e infeliz" (Stephen Tomkins, John Wesley, p. 167). Quinto, I Coríntios 7 implica que marido e esposa falam sobre assuntos sexuais juntos, pois entram em "consentimento" para se abster por um tempo por razões religiosas (5). Em geral, os maridos e esposas cristãos devem procurar agradar um ao outro, e viver sob o senhorio de Cristo no casamento e no sexo.



Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

sábado, 21 de janeiro de 2017

A Pessoa do Espírito Santo - Gordon Clark

Antes de apontarmos alguns versículos que ensinam a personalidade do Espírito, não somente pela sua capacidade de falar, mas de outras maneiras também, seria útil definir o termo pessoa. Isso é mais necessário na doutrina da Trindade. Alguém pode perguntar, como três pessoas podem estar em uma substância? Para responder a esta pergunta deve-se definir os dois termos principais. A medida em que o primeiro termo é considerado, a maioria dos teólogos ortodoxos têm definido, ou parcialmente definido, personalidade como consistindo de intelecto e vontade. Por exemplo, John Gill diz:

 “... uma pessoa subsiste e vive por si mesma, sendo dotado de vontade e compreensão, ou sendo um agente voluntário e inteligente”[1].

 Da mesma forma, falando sobre a pessoa humana, Jonathan Edwards escreveu:

 “Deus dotou a alma com duas principais faculdades: aquela que, através da qual, ele tem a capacidade perceber e especular, ou através da qual discerne e julga as demais coisas, é chamada de compreensão. A outra, aquela através da qual a alma é de alguma forma inclinada... essa faculdade poderia ser chamada [de]... mente... [e] muitas vezes [também poderia ser] chamada de coração”. 

O teólogo luterano, Francis Pieper, também menciona inteligência e vontade[2]. Charles Hodge diz:

 ¨As Escrituras ensinam claramente que Ele é uma pessoa. Personalidade inclui inteligência, vontade, e  subsistência do indivíduo”[3]. 

Não está claro o que Hodge quer dizer com  termo subsistência. Teólogos têm frequentemente utilizado neste termo subsistência , mas o significado fica difícil, ou nunca, esclarecido. John Walvoord define personalidade “como contendo os elementos essenciais do intelecto, sensibilidade e vontade. Todos estes elementos podem ser encontrados no Espírito Santo... Sua sensibilidade é revelada em que o Espírito pode ser entristecido pelo pecado (Efésios 4:30)”. Duas notas são necessários. Primeiro, se a sensibilidade inclui sensação, isso deve ser negado ao Espírito. Ele não tem órgãos dos sentidos. Ele não é corpóreo. Ele não tem olhos, orelhas ou nariz. Se, no entanto, o Espírito sofre, como diz Efésios 4:30, o versículo deve ser tomado como um antropopatismo. Em segundo lugar, ou talvez seja apenas uma correção do primeiro, o Espírito, como o Pai e o Filho, é imutável e impassível. Quando as emoções humanas são atribuídas a Deus, a linguagem é metafórica. Por isso deve-se atribuir um intelecto eterno e uma vontade imutável à Divindade.

   Evangelistas populares são propensos a cair neste mal-entendido. Billy Graham, atribuiu emoções ao Espírito Santo[4]. Aparentemente Graham não possui noções sobre eternidade e imutabilidade. Se alguém for confiar na minha afirmação, ele nem mesmo mantém a doutrina ortodoxa de Cristo. Na televisão, eu o ouvi discursar para um público na África, onde ele descreveu seu sermão como “Cristo: Deus em um corpo”. Isto é essencialmente uma heresia apolinariana; e os professores da Bíblia de diversas faculdades cristãs me informaram que pelo menos metade dos estudantes ingressam nas faculdades com esta falsa noção sobre Cristo.
Mas não é somente os evangelistas populares que estão errados. Edwin H. Palmer, que não é apenas um cabeça e ombros, mas também cintura, joelhos e tornozelos acima de Billy Graham, promove este mesmo erro em O Espírito Santo, onde ele diz: “Primeiramente, ela [a Bíblia] atribui a ele [o Espírito Santo] uma mente, vontade e emoções... tão longe como as emoções estão em causa, Efésios 4:30 assume que o Espírito pode ter dor, para nos ordena a não entristecer o Espírito Santo de Deus”[1]. Palmer não dá nenhuma pista de que a linguagem seja metafórica. Ele deveria ter feito isso. Na página 181 ele cita 1Tessalonicenses 5:19: “Não extingais o Espírito”, mas se uma pessoa não reconhece antropopatismos, juntamente com Atos 2:3, ela terá a impressão de que o Espírito Santo é literalmente fogo.
As três Pessoas são pessoas, embora consideravelmente diferentes da pessoa humana, pois são oniscientes e seus decretos eternos controlam toda a história do mundo. Vamos agora prosseguir com versículos adicionais que demonstram a personalidade do Espírito Santo, pois a sua capacidade de falar não é a única indicação de personalidade.
Primeiro, existem Mateus 12:31-32: “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada ... quem fala contra o Espírito Santo não será perdoada”. Seria o Espírito Santo superior tanto ao Pai quanto ao Filho? Contudo, isso é outra questão. Apenas pontuamos aqui que uma blasfêmia só pode ser dirigida contra uma pessoa.
Compare estes versículos de Mateus com Atos 5: 3-4: “Mas Pedro disse a Ananias: ‘Por que encheu Satanás o teu coração para mentir ao Espírito Santo ... Você não mentiu aos homens, mas a Deus’”. É claro que este versículo pode ser usado para comprovar a divindade do Espírito Santo, mas agora deve-se notar que tanto uma blasfêmia como uma mentira só poderiam ser dirigidas contra uma pessoa. Não se pode mentir para uma árvore ou uma pedra. Portanto, o Espírito Santo é uma pessoa e Atos 5:4 também demonstra que o Espírito é Deus.

João 16:8 diz: “Quando ele [o Consolador] vier, ele convencerá o mundo do pecado”. A palavra Consolador no versículo anterior em si pode ser traduzido como ajudante, intercessor, ou até mesmo advogado, e, portanto, uma pessoa que é chamada de parakletos pode ajudar. “Reprovador” também é uma função pessoal.

Uma árvore não pode reprovar ninguém, é preciso que uma pessoa diga: “Oh, lenhador, poupe esta árvore, não toque em nenhum ramo”.
Depois, há alguns versículos nas epístolas paulinas. Em Romanos 8:16, Paulo escreveu: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. Este versículo é geralmente interpretado como significando, “o Espírito testemunha ao nosso espírito”, mas não é isso que o texto diz. O com está claramente como um verbo no prefixo. Estranhamente, Hodge em seu comentário possui um grego correto, embora sua exegese aqui esteja errada. Shedd é melhor: “O espírito humano não está consciente do Espírito divino... o crente não pode conhecer... sua mente não lhe testifica sobre dois agentes ou pessoas”. Sobre quem, pois, essa testemunha estaria cooperando? Parece haver somente duas possibilidades: o Pai ou o público em geral. A escolha é um pouco difícil, pois alguém poderia muito bem supor que o Espírito Santo não dirá ao público em geral que “fulano-de-tal” é uma alma redimida, e que o “Sr. beltrano” é quem dará testemunho ao público em geral uma vez que Pai não precisar dize-lo. De qualquer forma, o ponto a ser destacado para o presente propósito não é a quem o Espírito testemunha, mas que ele testemunha. Testemunho é um ato pessoal.
Em seguida, temos 1 Coríntios 2:10-11, onde a ideia é quase similar: “Deus revelou [as coisas profundas de Deus, que olhos não viram nem ouvidos ouviram] a nós pelo seu Espírito... as coisas profundas de Deus...”. O final do versículo 11 aponta para a divindade do Espírito Santo, mas o ponto principal é que o Espírito Santo nos traz uma revelação sobre Deus. Aquilo que não poderia ser descoberto por qualquer experiência ou investigação humana, o Espírito nos faz saber. Tal ministério de ensino requer um professor.
Na mesma epístola, 12: 8-11: “Porque a um é dada pelo Espírito a palavra da sabedoria, a outro a palavra de conhecimento pelo mesmo Espírito, a outra fé... cura... milagres... línguas... tudo isso vem do mesmo Espírito – o mesmo que faz divide [distribuição] a cada um como quer”. Aqui o Espírito concede uma variedade de dons para uma variedade de pessoas. Ademais, será que uma pessoa pode conceder sabedoria e conhecimento à outra pessoa? O Espírito Santo distribui os seus dons como quer. O pronome “ele no final da passagem se refere ao Espírito Santo. Os dons não são distribuídos de acordo com o desejo dos homens, mas de acordo com o desejo do Espírito. Esta atribuição de vontade ao Espírito é outra afirmação de sua personalidade.
Em uma hora de lazer, se um jovem pastor tiver uma hora de lazer, ele poderá se entreter com a procura de outros versículos que, de uma forma ou de outra, demonstrem que o Espírito Santo é uma pessoa. A personalidade e a Divindade do Espírito Santo não são as únicas doutrinas que um pregador deve pregar, mas ele não deve omiti-las, pois ele tem a obrigação de pregar todo o conselho de Deus.



NOTAS:
[1] A Body of Divinity, Sovereign Grace edition, 1971, p.167, col.1.
[1] Christian Dogmatics, p.519.
[1] Systematic Theology, I, p.523.
[1] The Holy Spirit, 1964, p.17.
[1] Ibid, p.11.

Extraído de: CLARK, Gordon H. The Holy Spirit. Jefferson, Maryland: The Trinity Foundation, 1993, p.22-26.

Traduzido por: Dione Junior; Edu Marques.





sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ÓLEO DA UNÇÃO - Rev. Gilson Altino da Fonseca

A questão central envolvendo a unção com óleo de Tiago 5.14 é a seguinte: A unção com óleo é um mandamento para a igreja do Senhor Jesus em todas as épocas?
Após estudar o contexto exegético, canônico e histórico, concluímos que a prática da unção com óleo de Tiago 5.14 é questionável pelas seguintes razões:

1º - Falta respaldo canônico das Escrituras, pois a associação da unção com óleo à cura divina está baseada em apenas dois textos: Tiago 5.14 e Marcos 6.13 e esses textos são questionáveis em diversos pontos, como seguem:

1.1 - Sobre Marcos 6.13, devem ser observados os seguintes aspectos:

a) – Cristo não ordenou os seus apóstolos curar enfermos, ungindo-os com óleo, conforme o relato de Marcos 6.7-13, Mateus 10.1-42 e Lucas 9.1-6;
b) – O texto de Marcos 6.13 apenas relata que o que os discípulos fizeram, mas não há nesse texto e nem nas Escrituras nem um texto onde Cristo tenha ordenado curar enfermos ungindo-os com óleo; 
c) – A cura de enfermos com unção com óleo, mencionada em Marcos 6.13, está num contexto de operação de milagres. Os apóstolos, com a autoridade recebida do Senhor (Mc.6.7), exerceriam o ministério a eles confiado, autenticando-o com a operação de milagres, como por exemplo: a “ressurreição de mortos”, mencionada junto com a cura de enfermos, em Mateus 10.8: “Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios, de graça recebestes, de graça dai.”
d) – Convém lembrar que a operação de milagres era a credencial apostólica, conforme 2 Coríntios 12.12; “As credenciais do meu apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda a persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos.”
e) – Marcos 16.17 – 20, falando dos “sinais que hão de acompanhar aqueles que crêem”, não menciona a unção com óleo para a cura de enfermos. O texto apenas diz: "se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.”


1.2 – Quanto ao texto de Tiago 5.14-16, observam-se os seguintes aspectos:

a) – QUANTO A ÊNFASE DO TEXTO - A ênfase do texto está na oração e não na unção com óleo. Assim nos evidencia a própria estrutura da passagem.
1) - Em Tiago 5. 13 – 18, esta ênfase torna-se evidente com o uso do verbo proxeu/xomai (orar), que aparece nos versos 13,14 e 18, eu)xomai (orar ), que aparece no verso 16. São usados também os substantivos: eu)xh/ (oração), verso 15, proxeuxh/ (oração), verso 16 e de/hsij (súplica, petição) que aparece no verso 16.
2) – Convém salientar também que os imperativos estão nos verbos proxeu/xomai (orar), verso 13 e eu)xomai (orar), verso 16, e proskale/w (chamar), verso 14. Portanto, a ordem está em chamar os presbíteros e orar. O verbo a)lei/fw (ungir), no verso 14, não está no imperativo, mas no particípio, aoristo, masculino, plural (a)lei/yantej). A função do particípio é sempre explicar um detalhe do verbo principal da oração. 
3) - O exemplo da oração do profeta Elias, no final da perícope, (Tiago 5.17 a 18) também comprova a ênfase do texto na oração. 
4) – O texto, claramente, enfatiza a oração e a ação de Deus sobre o enfermo quando diz: “E a oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o levantará”. (Verso 15). Portanto, a ordem e a ênfase do texto está na oração e na ação de Deus sobre o enfermo. 
5) - Comentando Tiago 5.16, Simon Kistemaker afirma: “O original mantém a ênfase sobre a oração; o ato de ungir com óleo é secundário em relação à oração.” (KISTEMAKER, 2006, p.233). Conforme diz, Lange: “na aceitação literal do preceito, a oração seria o meio da cura milagrosa, que então seria realizada em nome do Senhor.”

b) – QUANTO A NATUREZA DA ORAÇÃO - Outro ponto importante a ser salientado aqui é a natureza da expressão “oração da fé”. 
1) -Lopes explica que essa oração a “que Tiago se refere é feita com uma fé diferente. Não se trata somente da ‘certeza das coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem’ (Hb 11.1), mas da absoluta certeza de que Deus ouviu a oração e que vai responde-la ali, naquele momento. O tipo de fé que não pode ser produzido pelo cristão, embora muitos evangélicos hoje pensem o contrário. Ela é dada por Deus, quando ele deseja atender ao pedido que está sendo feito. No nosso caso, ‘a oração da fé’ é aquela feita por um ou mais presbíteros, aos quais Deus concede a fé necessária para a plena certeza de que o doente será curado ali. E de fato, conforme Tiago promete, tal oração salvará o enfermo. ” [...] Contudo, ‘a oração da fé’ é algo dado por Deus, soberanamente, a quem ele deseja dar. O que temos aqui, provavelmente, é aquela fé mencionada por Paulo em 1 Coríntios: ‘ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montes’ (1 Co. 13.1), que ele considera um dom do Espírito: ‘a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé’ (1 Co 12.8,9). O ponto aqui e que se trata de uma fé que é dada por Deus e que não é produzida apelo homem.” (177). 
 2) – A questão, portanto, a ser levantada aqui é: será que todos os presbíteros hoje possuem essa fé para o cumprimento do texto de Tiago 5.14-17? Institucionalizar a prática da unção com óleo de Tiago 5.14 é pressupor, na prática, que todos os presbíteros estão dotados por Deus com esse dom da fé de 1 Coríntios 12.8-9.

c) – QUANTO AO CONTEXTO DA CARTA - Apesar do caráter genérico do destinatário: “às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações” (Tiago 1.1), não podemos ignorar o contexto judaico da carta de Tiago. 
1) Comentando esse aspecto Carson afirma: “Diversos aspectos da carta deixam claro que os destinatários eram cristãos judeus: a maneira natural de mencionar o Antigo Testamento (1.25; 2.8-13), a referência ao lugar onde os destinatários se reuniam como uma sinagoga (2.2) e o uso disseminado de metáforas do Antigo Testamento e do judaísmo.” (CARSON; MOO; MORRIS,1997, p. 460).
2) – Sobre esse aspecto judaico do destinatário de Tiago, Barclay informa:

 • “Quando um judeu estava doente, antes de ir ao médico ia ao rabino. E o rabino o ungia com azeite – o qual Galeno, o grande médico grego, chamava ‘o melhor dos remédios’ – e orava por ele.” (BARCLAY, 1983, p.152).
• Comentando os versos 16-17, Barclay, novamente salienta o aspecto judaico da carta de Tiago afirmando que: “Há nesta passagem [...] ideias básicas da religião judia: [...] Existe a ideia de que toda enfermidade é devido ao pecado. Este pensamento judeu estava profundamente arraigado na convicção de que onde havia enfermidade e sofrimento também devia ter havido pecado. ‘Não há morte sem culpa e não há sofrimento sem pecado’, diziam os rabinos.” (p.154).
3) Essa questão é importante, pois, sendo o contexto judaico, cabe, pois, perguntar: O texto de Tiago 5.13-14 está normatizando uma prática no contexto de uma igreja judaico-cristã, ou está prescrevendo um mandamento para a igreja do Senhor em todas as épocas e culturas?
• – Comentando esse aspecto, LOPES é muito coerente quando afirma: “Não sabemos ao certo se era uma prática geral nas igrejas apostólicas orar pelos enfermos ungindo-os com óleo ou se Tiago aqui introduziu essa prática entre os deveres dos presbíteros das igrejas judaico-cristãs. Essa possibilidade pode ser a mais correta.” (LOPES, 2006, p.174)
• - É provável que no contexto da expansão do Cristianismo, a produção de cópias do autógrafo da carta de Tiago generalizou a prática da unção com óleo, anteriormente circunscrita ao contexto de igrejas judaico-cristãs.
 • – Quanto a essa questão, Lopes afirma: “Se a datação de sua carta que defendemos na Introdução deste comentário [ década de 40 AD] for correta, essa determinação foi passada bem no início da expansão do Cristianismo, e pode ter sido seguida não somente nas igrejas às quais Tiago escreveu, mas também nas demais igrejas às quais cópias de sua carta chegaram. A prática de ungir doentes continuou pela Idade Média, contudo, sob a forma equivocada da extrema-unção, praticada posteriormente pela Igreja Católica no século 8º como sacramento.” (LOPES, p.174-175)


2º - As Escrituras não relatam que Cristo tenha curado enfermos ungindo-os com óleo. Além disso, as Escrituras nos mostram que Cristo curou enfermos de diversas maneiras:

a) – Tocando e falando aos enfermos: “Então lhes tocou os olhos dizendo: Faça-se-vos conforme a vossa fé. E abriram-se-lhes os olhos” (Mateus 9.29);
b) – Apenas com a sua palavra: “Então disse Jesus: Recupera a tua vista; a tua fé te salvou. Imediatamente tornou a ver,...” (Lucas 18.42-43);
c) – Ungindo o doente com lodo feito com terra e saliva: “Cuspiu na terra e tendo, feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lavar-te no tangue de Siloé.” (João 9.6,7);


3º - Nas curas efetuadas pelos apóstolos, registradas no livro de Atos, não há menção do uso da unção com óleo. Observa-se que eles:

a) – Curavam apenas com a palavra, em nome de Jesus – Atos 3.6; 9.34; 14.8-10; 16.18; 
b) – Doentes foram colocados nas ruas para que a sombra de Pedro fosse projetada sobre eles e fossem curados. Atos 5.15,16;
c) – Curavam com oração e imposição de mãos sobre os enfermos – Atos 28.8,9.
d) – Curavam através de objetos pessoais dos doentes – Atos 19. 11-12.


4º - O testemunho dos Pais da Igreja atesta que, após o período apostólico, com a escassez de curas milagrosas, o misticismo foi acrescentado à prática da unção com óleo.

a) – Conforme Bezerril, “Durante os primeiros séculos da igreja parece não haver muita ênfase no óleo como tendo uma eficácia espiritual, como veio a ser concebido mais tarde. [...] Pelo fato do óleo ter cessado sua eficácia como elemento efetivo na cura dos doentes, alguns se empenharam em acrescentar uma virtude ao óleo (como acontece nos dia de hoje), ou por consagração especial, ou combinando-o com relíquias de santos martirizados, enquanto que outros, como os Heracleanos e a Igreja de Roma, em tempos posteriores, afirmaram que o óleo retinha uma eficácia espiritual a ponto de perdoar pecados.” (p.5)
c) – Bezerril informa que: “a entrada da heresia quanto ao óleo foi sentida num período ainda cedo na igreja. Cirilo de Alexandria (De Adorat in spir. Et ver. Vi, p.211) e Cesário de Arles alertavam o povo contra encantamentos e mágicas, usando, exatamente o texto de Tiago 5.14 dizendo que o poder não vinha do óleo. Oléo é apenas sinal.” (p.5)


5º - Lutero condenou a prática de ungir enfermos com óleo. 

a) – Para Lutero, a unção de Tiago 5.13-14 é a mesma que foi praticada pelos apóstolos conforme Marcos 6.13. Mas ele afirma: “Trata-se, pois, de um certo rito da Igreja primitiva, pelo qual faziam milagres entre os enfermos. Já desapareceu há muito.” (p.420).
b) – Lutero entende que a cura mencionada em Tiago 5.13-14 é de natureza milagrosa. Segundo ele, “é somente para aqueles que sofrem a enfermidade com maior impaciência e fé rude. Esses foram deixados pelo Senhor para que neles aparecessem os milagres e o poder da fé.” (p.420).
c) – Comentando sobre a eficácia da unção aos enfermos, nos seus dias, Lutero afirma: “Ora, ela promete saúde e restabelecimento ao enfermo, como manifestam claramente as palavras: ‘a oração de fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará.’ [Tg.5.15] Mas quem não vê que essa promessa se cumpre em poucos, melhor dito, em nenhum? Entre mil apenas um se restabelece. Ninguém crê que isso sucede pelo sacramento, e sim pela ajuda da natureza ou da medicina, já que ao sacramento atribuem a virtude contrária. Que, pois, diremos? Ou o apóstolo engana com essa promessa, ou essa unção não é sacramento. Porque a promessa sacramental é certa; essa, porém, falha na maiorias das vezes.” (p.419-420)


6º. Calvino também condenou a prática da unção com óleo, entendendo que a prática de ungir doentes com óleo foi temporária e de caráter milagroso. 

a) – “Embora Cristo não tenha declarado expressamente que ele pretendia que esse dom fosse temporário ou permanente em sua Igreja, conduto é mais provável que os milagres foram prometidos apenas por um tempo, a fim de dar brilho ao Evangelho, quando ainda era novo e desconhecido. [...] Certamente, vemos que o uso deles cessou muito tempo depois, ou, pelo menos, que os exemplos deles eram tão raros que nos autorizavam a concluir que eles não seriam igualmente comuns em todas as idades.”


7º - Há mandamentos nas Escrituras que foram reconhecidos pelo Concílio de Jerusalém, em 48 AD., como sendo algo aplicável apenas à nação judaica, como por exemplo a circuncisão, conforme Atos 15. 24-29. E a prática da unção com óleo fazia parte da cultura e religião judaica, conforme visto anteriormente;

8º - Há mandamentos que são reconhecidos por nós, reformados, como algo restrito ao contexto sócio-cultural, como por exemplo: o uso do ósculo santo (1 Ts.5.26; 2 Co. 13.12) e o uso do véu (1. Co. 11.10). Qual é o respaldo bíblico que nós temos para dizer que Tiago 5.14 não está restrito ao contexto cultural e deve ser aplicado pela igreja do Senhor em todas épocas e culturas?


Por Rev. Gilson Altino da Fonseca
Documento  encaminhado para o Sínodo afim de seguir para o Supremo Concílio da IPB. sobre a prática de Unção com Óleo nas Igrejas Presbiterianas do Brasil