sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

20 RECOMENDAÇÕES DE THOMAS WATSON

Em 24 de agosto de 1662, dois mil ministros puritanos do evangelho foram excluídos de seus púlpitos, tendo recebido a ordem de não mais pregarem em público. O Ato de Uniformidade, baixado pelo parlamento inglês, conhecido pelos evangélicos como a Grande Ejeção, pairava por sobre a Inglaterra como uma nuvem espessa. Muitos líderes eclesiásticos da Igreja Anglicana, a religião oficial, estavam forçando os puritanos a cessarem suas prédicas ou a se moldarem à adoração litúrgica decretada por lei. Muitos ministros preferiam o silêncio à transigência.
Com olhos marejados de lágrimas, milhares de cristãos humildes ouviram seu último sermão no domingo imediatamente anterior à data em que o Ato se tornaria lei. E, naquele último domingo de liberdade, os ministros puritanos provavelmente pregaram os seus melhores sermões.
O sermão que passamos a transcrever, de modo um tanto abreviado, foi pregado por Thomas Watson a seu pequeno rebanho.
Antes que eu me vá, devo oferecer alguns conselhos e orientações para vossas almas. Eis as vinte instruções que tenho a dar a cada um de vós, para as quais desejo a mais especial atenção:
1) Antes de tudo, observa tuas horas constantes de oração a Deus, diariamente. O homem piedoso é homem "separado" (Sl 4.3), não apenas porque Deus o separou por eleição, mas também porque ele mesmo se separa por devoção. Inicia o dia com Deus, visita-O pela manhã, antes de fazeres qualquer outra coisa. Lê as Escrituras, pois elas são, ao mesmo tempo, um espelho que mostra as tuas manchas e um lavatório onde podes branquear essas máculas. Adentra ao céu diariamente, em oração.
2) Coleciona bons livros em casa. Os livros de qualidade são como fontes que contêm a água da vida, com a qual poderás refrigerar-te. Quando descobrires um arrepio de frio em tua alma, lê esses livros, onde poderás ficar familiarizado com aquelas verdades que aquecem e afetam o coração.
3) Tem cuidado com as más companhias. Evita qualquer familiaridade desnecessária com os pecadores. Ninguém pode apanhar a saúde de outrem; mas pode-se apanhar doenças. E a doença do pecado é altamente transmissível. Visto não podermos melhorar os outros, ao menos tenhamos o cuidado de que eles não nos façam piores. Está escrito acerca do povo de Israel que "se mesclaram com as nações e lhes aprenderam as obras" (Sl 106.35). As más companhias são as redes de arrastão do diabo, com as quais arrasta milhões de pessoas para o inferno. Quantas famílias e quantas almas têm sido arruinadas pelas más companhias!
4) Cuidado com o que ouves. Existem certas pessoas que, com seus modos sutis, aprendem a arte de misturar o erro com a verdade e de oferecer veneno em uma taça de ouro. Nosso Salvador, Jesus Cristo, aconselhou-nos: "Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores" (Mt 7.15). Sê como aqueles bereanos que examinavam as Escrituras, para verificar se, de fato, as coisas eram como lhes foram anunciadas (At 17.11). Aos crentes é mister um ouvido discernidor e uma língua crítica, que possam distinguir entre a verdade e o erro e ver a diferença entre o banquete oferecido por Deus e o guisado colocado à sua frente pelo diabo.
5) Segue a sinceridade. Sê o que pareces ser. Não sejas como os remadores, que olham para um lado e remam para outro. Não olhes para o céu, com tua profissão de fé, para, então, remar em direção ao inferno, com tuas práticas. Não finjas ter o amor de Deus, ao mesmo tempo que amas o pecado. A piedade fingida é uma dupla iniquidade. Que teu coração seja reto perante Deus. Quanto mais simples é o diamante, tanto mais precioso ele é; e quanto mais puro é o coração, maior é o valor que Deus dá à sua joia. O salmista disse sobre Deus: "Eis que te comprazes na verdade no íntimo" (Sl 51.6).
6) Nunca te esqueças da prática do auto-exame. Estabelece um tribunal em tua própria alma. Tem receio tanto de uma santidade mascarada quanto de ires para um céu pintado. Julgas-te bom porque outros assim pensam de ti? Permite que a Palavra seja um ímã com o qual provarás o teu coração. Deixa que a Palavra seja um espelho, diante do qual poderás julgar a aparência de tua alma. Por falta de autocrítica, muitos vivem conhecidos pelos outros, mas morrem desconhecidos por si mesmos. "De noite indago o meu íntimo", disse o salmista (Sl 77.6).
7) Mantém vigilância quanto à tua vida espiritual. O coração é um instrumento sutil, que gosta de sorver a vaidade; e, se não usarmos de cautela, atrai-nos, como uma isca, para o pecado. O crente precisa estar constantemente alerta. Nosso coração se assemelha a uma "pessoa suspeita". Fica de olho nele, observa o teu coração continuamente, pois é um traidor em teu próprio peito. Todos os dias deves montar guarda e vigiar. Se dormires, aí está a oportunidade para as tentações diabólicas.
8) O povo de Deus deve reunir-se com freqüência. As pombas de Cristo devem andar unidas. Assim, um crente ajudará a aquecer ao outro. Um conselho pode efetuar tanto bem quanto uma pregação. "Então, os que temiam ao SENHOR falavam uns aos outros" (Ml 3.16). Quando um crente profere a palavra certa no tempo oportuno, derrama sobre o outro o óleo santo que faz brilhar com maior fulgor a lâmpada do mais fraco. Os biólogos já notaram que há certa simpatia entre as plantas. Algumas produzem melhor quando crescem perto de outras plantas. Semelhantemente, esta é a verdade no terreno espiritual. Os santos são como árvores de santidade. Medram melhor na piedade quando crescem juntos.
9) Que o teu coração seja elevado acima do mundo. "Pensai nas coisas lá do alto" (Cl 3.2). Podemos ver o reflexo da lua na superfície da água, mas ela mesma está acima, no firmamento. Assim também, ainda que o crente ande aqui em baixo, o seu coração deve estar fixado nas glórias do alto. Aqueles cujos corações se elevam acima das coisas deste mundo não ficam aprisionados com os vexames e desassossegos que outros experimentam, mas, antes, vivem plenos de alegria e de contentamento.
10) Consola-te com as promessas de Deus. As promessas são grandes suportes para a fé, que vive nas promessas do mesmo modo que o peixe que vive na água. As promessas de Deus são quais balsas flutuantes que nos impedem de afundar, quando entramos nas águas da aflição.
11) Não sejas ocioso, mas trabalha para ganhar o teu sustento. Estou certo de que o mesmo Deus que disse: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar", também disse: "Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra". Deus jamais apoiou qualquer ociosidade. Paulo observou: "Estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia. A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranquilamente, comam o seu próprio pão" (2 Ts 3.11-12).
12) Ajunta a primeira tábua da Lei à segunda, isto é, piedade para com Deus e equidade para com o próximo. O apóstolo Paulo reúne essas duas idéias, em um só versículo: "Vivamos, no presente século... justa e piedosamente" (Tt 2.12). A justiça se refere à moralidade; a piedade diz respeito à santidade. Alguns simulam ter fé, mas não têm obras; outros têm obras, mas não têm fé. Alguns se consideram zelosos de Deus, mas não são justos em seus tratos; outros são justos no que fazem, mas não têm a menor fagulha de zelo para com Deus.
13) Em teu andar perante os outros, une a inocência à prudência. "Sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt 10.16). Devemos incluir a inocência em nossa sabedoria, pois doutro modo tal sabedoria não passará de astúcia; e precisamos incluir sabedoria em nossa inocência, pois do contrário nossa inocência será apenas fraqueza. Convém que sejamos tão inofensivos como as pombas, para que não causemos danos aos outros, e que tenhamos a prudência das serpentes, a fim de que os outros não abusem de nós nem nos manipulem.
14) Tenha mais medo do pecado que dos sofrimentos. Sob o sofrimento, a alma pode manter-se tranquila. Porém, quando um homem peca voluntariamente, perde toda a sua paz. Aquele que comete um pecado para evitar o sofrimento, assemelha-se ao indivíduo que permite sua cabeça ser ferida, para evitar danos ao seu escudo e capacete.
15) Foge da idolatria. "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos" (1 Jo 5.21). A idolatria consiste numa imagem de ciúme que provoca a Deus. Guarda-te dos ídolos e tem cuidado com as superstições.
16) Não desprezes a piedade por estar sendo ela perseguida. Homens ímpios, quando instigados por Satanás, vituperam, maliciosamente, o caminho de Deus. A santidade é uma qualidade bela e gloriosa. Chegará o tempo quando os iníquos desejarão ver algo dessa santidade que agora desprezam, mas estarão tão removidos dela como agora estão longe de desejá-la.
17) Não dá valor ao pecado por estar atualmente na moda. Não julga o pecado como coisa apreciável, só porque a maioria segue tal caminho. Pensamos bem sobre uma praga, só porque ela se torna tão generalizada e atinge a tantos? "E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as" (Ef 5.11).
18) No que diz respeito à vida cristã, serve a Deus com todas as tuas forças. Deveríamos fazer por nosso Deus tudo quanto está no nosso alcance. Deveríamos servi-Lo com toda a nossa energia, posto que a sepultura está tão perto, e ali ninguém ora nem se arrepende. Nosso tempo é curto demais, pelo que também o nosso zelo de Deus deveria ser intenso. "Sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor" (Rm 12.11).
19) Faze aos outros todo o bem que puderes, enquanto tiveres vida. Labuta por ser útil às almas de teus semelhantes e por suprir as necessidades alheias. Jesus Cristo foi uma bênção pública no mundo. Ele saiu a fazer o bem. Muitos vivem de modo tão infrutífero, que, na verdade, suas vidas dificilmente são dignas de uma oração, como também seu falecimento quase não merece uma lágrima.
20) Medita todos os dias sobre a eternidade. Pois talvez seja questão de poucos dias ou de poucas horas - haveremos de embarcar através do oceano da eternidade. A eternidade é uma condição de desgraça eterna ou de felicidade eterna. A cada dia, passa algum tempo a refletir a respeito da eternidade. Os pensamentos profundos sobre a eterna condição da alma deveriam servir de meio capaz de promover a santidade. Em conclusão, não devemos superestimar os confortos deste mundo. As conveniências do mundo são muito agradáveis, mas também são passageiras e logo se dissipam. A idéia da eternidade deve ser o bastante para impedir-nos de ficar tristes em face das cruzes e sofrimentos neste mundo. A aflição pode ser prolongada, mas não eterna. Nossos sofrimentos neste mundo não podem ser comparados com nosso eterno peso de glória. Considerai o que vos tenho dito, e o Senhor vos dará entendimento acerca de tudo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Deveres Mútuos do Esposo e da Esposa - John Angell James

Amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente (1 Pe 1.22).
O casamento é o alicerce da estrutura familiar. O apóstolo disse: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio” (Hb 13.4) e condenou como “doutrina de demônios” a opinião de alguns no sentido de que o casamento é proibido (1 Tm 4.1). O casamento é uma instituição divina. Foi estabelecido no Éden, honrado pela presença de Cristo e serviu de ocasião para à realização do primeiro de uma série de milagres esplêndidos que Ele fez para provar que era o Filho de Deus e o Salvador do mundo.
O casamento distingue os homens dos animais, servindo não somente para a continuidade, mas também para o conforto de nossa raça. Contém a fonte da felicidade humana, bem como de todas as emoções excelentes e os sentimentos altruístas que enobrecem o caráter do homem. Nunca podemos demonstrar vigilância e zelo suficientes para guardar o casamento, assim como nunca podemos demonstrar prudência e cuidado bastantes para assumir o casamento. Meu objetivo é abordar aqueles deveres que são comuns ao esposo e à esposa.
  1. O primeiro dever que menciono é o fundamento de todo os outros — o amor. Se não houver amor, o casamento é logo degradado e se torna um acordo sórdido e grosseiro. Esse dever, que é recomendado especialmente ao homem, compete também à esposa. Tem de ser mútuo, pois, do contrário, não pode haver felicidade, pelo menos para aquele que não ama. Quão terrível é a ideia de estar preso, para o resto da vida, a uma pessoa pela qual não temos qualquer afeição e de viver quase sempre na companhia de uma pessoa da qual nos esquivamos, por aversão, embora estejamos sob um vínculo que impede a separação e o abandono.
Também não pode haver felicidade para aquele que ama. A afeição não correspondida logo expirará ou existirá somente para consumir o coração infeliz no qual ele arde. Um casamento sem amor mútuo é um dos espetáculos mais dignos de compaixão na terra. Os cônjuges não podem e, de fato, em circunstâncias regulares, não devem separar-se; mas permanecem unidos somente para serem tormento mútuo. Servem a um importante propósito na história da humanidade: ser um alerta para aqueles que ainda não casaram, adverti-los contra o pecado e a tolice de estabelecerem sua união sem o fundamento de uma apego mútuo e puro e advertir todos os que são casados a cuidar com mais intensa dedicação de sua consideração mútua, a fim de não permitirem que nada apague o amor sagrado.
Visto que a união deve ser formada com base no amor, devemos manifestar grande cuidado, especialmente nos estágios iniciais do amor, para não surgir nada que arruíne ou afrouxe nossos laços. Todo o conhecimento que obtemos a respeito dos interesses e dos hábitos do outro, antes do casamento, não é tão exato, nem tão abrangente, nem tão impressionante como aquele que obtemos por vivermos juntos. Há consequências extraordinárias no fato de que, ao serem percebidos pequenos defeitos e faltas triviais e ao ocorrerem as primeiras oposições, o casal não permite que essas coisas produzam uma impressão desfavorável no coração.
Se os cônjuges querem preservar o amor, devem assegurar-se de estudar com mais exatidão as coisas que cada um gosta e não gosta; e, com muita prontidão, absterem-se de tudo, até de coisas mínimas, que sabem ser contrário [a esses gostos]. Se querem preservar o amor, devem evitar com bastante cuidado todas as estranhas e frequentes distinções de meu e teu, pois isso tem causado todas as leis, todos os litígios e todas as guerras no mundo.
  1. O respeito mútuo é um dever da vida conjugal. Embora, como observaremos depois, o respeito especial seja um dever da esposa, também é um dever do esposo. É difícil respeitarmos aqueles que não têm direito a isso com base em qualquer outro fundamento que não seja a posição de superioridade ou o relacionamento comum; por isso, é muito importante oferecermos um ao outro um tipo de comportamento que merece respeito e o recomenda. Estima moral é um dos mais firmes alicerces e mais fortes apoios do amor; e um elevado grau de excelência não deixa de produzir essa estima. Nesta conexão, somos mais conhecidos um pelo outro do que pelo mundo, ou por nossos empregados, ou mesmo por nossos filhos. A privacidade desse relacionamento expõe os nossos motivos e todo o interior de nosso caráter, de modo que somos mais bem conhecidos um para o outro do que o somos para nós mesmos.
Portanto, se queremos ser respeitados, devemos ser respeitáveis. É verdade: o amor cobre uma multidão de pecados. Contudo, não devemos confiar demais na credulidade e na cegueira da afeição: há um ponto além do qual nem mesmo o amor pode ser cego para com a transparência de uma ação culpada. Toda conduta pecaminosa, cuja impropriedade não deve ser mal interpretada, tende a depreciar-nos na estima do outro e, conseqüentemente, a remover as salvaguardas da afeição. Em toda a conduta do estado matrimonial, deve haver o mais distinto e invariável respeito mútuo nas pequenas coisas. Não pode haver a procura de erros, nenhum exame detalhado, palavras críticas e abusivas, nenhum menosprezo rude, nenhuma indelicadeza, nenhuma negligência incoerente. Deve haver cortesia sem cerimônia, educação sem formalidade, atenção sem servidão. Em resumo, deve haver a ternura do amor, apoiada por estima e norteada por polidez. Temos de manter nossa respeitabilidade mútua perante as outras pessoas. Praticar uma ação, dizer uma palavra ou assumir uma postura que terá a mais remota tendência de diminuir o outro na estima das pessoas constitui o mais elevado grau de impropriedade para cada cônjuge.
  1. Apego mútuo na companhia um do outro é o dever do esposo e da esposa. Nós nos casamos para sermos companhias — para vivermos juntos, andarmos juntos, conversarmos juntos. O marido é ordenado a viver a vida comum do lar com discernimento (1 Pe 3.7). “Isso”, disse William Jay, “tenciona nada mais do que a residência, em oposição à ausência e a vagueação. Entrar nesse estado é um absurdo para aqueles que não têm qualquer perspectiva de habitarem juntos. E aqueles que já são casados não deveriam estar desnecessariamente fora do lar. Vários tipos de circunstâncias tornarão inevitáveis algumas viagens, mas o esposo deve retornar tão logo se cumpra o propósito de sua ausência. Ele deve sempre viajar com as palavras de Salomão em sua mente: ‘Qual ave que vagueia longe do seu ninho, tal é o homem que anda vagueando longe do seu lar’ (Pv 27.8). Um homem que está fora de seu lar pode cumprir os deveres para com a família? Pode disciplinar seus filhos? Pode manter a adoração a Deus na família? Sei que é o dever da esposa liderar as devoções na ausência do esposo; e deve tomar esse dever como uma cruz, se não como um privilégio. Poucas estão dispostas a fazer isso; assim, um dos santuários de Deus permanece fechado por semanas e meses. Sinto tristeza em dizer: há esposos mais inclinados a qualquer outra companhia do que à de sua esposa. Isso se manifesta na maneira como eles usam suas horas vagas. Quão poucas dessas horas são dadas à esposa! A noite é o período mais doméstico do dia. A esposa tem o direito peculiar desse período: ela está agora mais livre de seus inúmeros cuidados e tem mais liberdade para desfrutar de uma leitura e de uma conversa. É uma triste reflexão sobre um homem, quando ele se mostra propenso a gastar sua noite fora de casa. Isso significa algo mau e prediz coisa pior”.
Para garantir a companhia do esposo em seu próprio lar, a esposa deve ser boa dona de casa (Tt 2.5) e fazer tudo que puder para tornar o lar atraente, mostrando bom humor, asseio, alegria e conversa afetiva. Ela deve se esforçar para fazer do lar o lugar agradável em que ele gosta de descansar sob o esplendor do regozijo doméstico.
Visto que um homem e mulher se uniram para viver na companhia um do outro, eles devem ficar, tanto quanto possível, na companhia um do outro. Há algo errado na vida doméstica se os cônjuges precisam da ajuda de danças, festas, jogos e entretenimentos para aliviá-los da monotonia produzida pelos deveres do lar. Agradeço a Deus pelo fato de que sou estranho ao prazer que leva um homem a fugir do sua sala confortável, da companhia da esposa, da instrução e da recreação contida em uma biblioteca bem suprida, de um passeio com a esposa à noite, quando os negócios do dia se acabaram, para sair a lugares de entretenimento público, em busca de regozijo. Em meu juízo, os prazeres do lar e da família são tais que nunca causam desgosto e precisam ser mudados.
Eu anelo e suspiro, talvez em vão, pela época em que a sociedade será elevada e purificada; a época em que o amor ao conhecimento será tão elevado e os hábitos da vida, tão simples; a época em que o cristianismo e a moralidade serão amplamente difundidos, e os lares dos homens serão o lugar e o âmbito de seus prazeres; a época em que cada pessoa achará o seu maior deleite terreno na comunhão de uma esposa amorosa e inteligente e de filhos bem educados; a época em que as pessoas acharão que deixar o lar, para ir a bailes, concertos, teatros, será tão necessário à sua felicidade como o abandonar uma mesa bem preparada, em troca de uma festa pública, para satisfazer os anseios de um apetite saudável. Nessa época, não haverá mais a imposição de provarmos que os entretenimentos públicos são impróprios, pois eles serão desnecessários.
  1. A tolerância mútua é outro dever. Isso nós devemos a todos, incluindo o estranho e o inimigo. E, com certeza, não deve ser negado à pessoa de nossa maior intimidade. Pois o “amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13.4-7). Tanto há necessidade como lugar para esse amor em todos os relacionamentos da vida. Onde há pecado e imperfeição, existe ambiente para a tolerância resultante do amor. Aqueles que amam, é verdade, imaginam que já acharam essa tolerância; todavia, uma análise mais sensata do esposo e da esposa corrige o engano. As primeiras impressões dessa tolerância passam geralmente com o primeiro amor. Todos devemos adentrar o casamento lembrando que estamos prestes a nos unirmos com uma criatura caída. As afeição não impedem, mas exigem que apontemos mutuamente as nossas faltas. Isso deve ser feito com toda a humildade de sabedoria, com toda a ternura do amor, para que não aumentemos o mal que tencionamos remover ou o substituamos por outro mais grave.
  1. Auxílio mútuo é o dever do esposo e da esposa. Isso se aplica ao cuidado da vida. O esposo não deve nunca realizar qualquer coisa importante sem comunicar o assunto à esposa, que, por sua vez, em lugar de esquivar-se da responsabilidade de aconselhar e deixá-lo lidar sozinho com suas dificuldades e problemas, deve convidá-lo a compartilhar livremente toda as suas ansiedades. Pois, se não lhe pode dar conselho, pode animá-lo. Se ela não pode aliviar suas preocupações, pode ajudá-lo a carregá-las. Se não pode direcionar o rumo de seu negócio, pode direcionar o fluxo de seus sentimentos. Se a esposa não pode oferecer-lhe uma fonte de sabedoria secular, pode derramar o assunto diante do Pai e Fonte das luzes. Muitos homens, devido à ideia de delicadeza de sua esposa, guardam consigo todas as suas dificuldades, e isso os predispõem a sentir o golpe mais intenso, quando ele vier.
E, uma vez que a esposa deve estar disposta a ajudar o esposo nas questões de negócios, ele deve estar disposto a compartilhar com ela o fardo de ansiedades e fadigas do lar. Alguns erram e degradam completamente o líder feminino da família, tratando a esposa como se a sua honestidade e habilidade não fossem dignas de confiança na administração das coisas do lar. Eles guardam o dinheiro e o dão aos pouquinhos, como se estivessem perdendo o sangue de sua vida, sendo mesquinhos em relação ao dinheiro que dão e exigindo contas rígidas, como se esposa fosse um empregado suspeito. Eles se encarregam de tudo, cuidam de tudo, interferem em tudo. Isso despoja a mulher de sua autoridade, tira-a do seu devido lugar, insulta-a e degrada-a perante os filhos e os empregados.
Por outro lado, alguns chegam ao oposto e não ajudam em nada. Meu coração se entristece por ver a servidão de algumas mulheres piedosas, trabalhadoras e mal-tratadas. Depois de trabalharem durante todo o dia em atividades infindas de uma família jovem e numerosa, elas têm de passar horas da noite em solidão, enquanto o esposo, em vez de vir para casa, a fim de alegrá-la com sua companhia ou aliviá-la de sua fadiga por pelo menos durante meia hora, vai a uma festa ou mesmo a um sermão. E existem aquelas mulheres desafortunadas que têm de acordar e vigiar durante toda a noite o bebê doente e inquieto, enquanto o homem que ela aceitou partícipe de suas aflições dorme ao seu lado e não se dispõe a dar-lhe sequer uma hora de seu sono, a fim de proporcionar um pouco de descanso a sua esposa fatigada. Ora, até as criaturas irracionais envergonham esse homem. Pois, todos sabem que o pássaro macho cumpre a sua vez de permanecer sobre o ninho, na época de incubação, permitindo que a fêmea tenha ocasião de renovar as suas forças, por meio de alimentação e descanso; além disso, ele sai com ela em busca de alimentos, para nutrir os filhotes, quando eles clamam. O homem não deve pensar em casar se não está preparado para compartilhar com a esposa, tanto quanto lhe for possível, o fardo dos cuidados domésticos.
Eles devem ajudar um ao outro no que diz respeito ao cristianismo pessoal. Isso está implícito na linguagem do apóstolo: “Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” (1 Co 7.16). Quando ambos os cônjuges não são convertidos ou quando somente um deles é participante da verdadeira piedade, deve haver os mais ansiosos, prudentes e amorosos esforços em favor da salvação deles. Quão infeliz é o estado de paganismo no qual duas pessoas desfrutam juntas os confortos do casamento e, depois, vão juntas à eterna perdição! Consolam um ao outro na terra e se atormentam mutuamente no inferno! São companheiros de felicidade neste tempo e companheiros de tormento por toda a eternidade! Quando ambos os cônjuges são crentes, deve haver o exercício de solicitude constante e recíproca, bem como de vigilância e cuidado em relação ao bem estar espiritual e eterno.
Conversamos com nosso cônjuge sobre os temas sublimes da redenção por meio de Cristo e da salvação eterna? Estudamos as disposições, fraquezas, dificuldades e os declínios espirituais um do outro, para aplicarmos os remédios adequados? Exortamos um ao outro diariamente, para que não sejamos endurecidos pelo engano do pecado? Praticamos a fidelidade, sem criticismo, e ministramos elogios, sem bajulação? Convidamos um ao outro para atendermos aos mais edificantes e fortalecedores meios públicos da graça e recomendamos a leitura atenta e instrutiva de livros edificantes, que achamos benéficos para nós mesmos? Expomos mutuamente o que pensamos sobre o assunto do cristianismo pessoal e revelamos nossas perplexidades, temores, alegrias e tristezas? Infelizmente, quem não se envergonha de suas negligências nestes particulares? Mas essa negligência é pecaminosa e comum. Fugimos da ira vindoura, mas não fazemos tudo que podemos para ajudar um ao outro a escapar! Contendemos lado a lado pela coroa de glória, honra, imortalidade e vida eterna, mas não fazemos tudo que podemos para assegurar o sucesso do outro! Isso é amor? Isso é a ternura da afeição matrimonial?
Essa ajuda mútua deve se estender à manutenção de todas atividades da ordem, disciplina e piedade do lar. O marido deve ser o profeta, sacerdote e rei da família, para instruir a mente de seus membros, liderar suas devoções e governar suas disposições. Em tudo que se relaciona a esse assuntos cruciais, a esposa deve ter o mesmo pensamento. Nesses assuntos, eles devem trabalhar juntos, não permitindo que nenhum dos dois trabalhem sozinho, não se opondo nem distorcendo o que é feito.
Na terra, não se pode achar uma cena mais amável do que aquela de um casal piedoso empregando sua influência mútua e os momentos de seu companheirismo para estimularem um ao outro a realizarem obras de misericórdia e benevolência espiritual. Nem mesmo Adão e Eva no paraíso, com suas vestes de inocência, envolvidos em cuidar da vinha ou em tirar as rosas daquele jardim santo, apresentam um espetáculo mais interessante do que esse.
  1. Simpatia mútua é exigida. A enfermidade pode exigir isso. E as mulheres parecem ser naturalmente formadas e inclinadas a oferecer simpatia. “Ó mulher… tu és um anjo ministrador!”… Se pudéssemos viver sem a mulher e ser felizes na saúde, o que seríamos nós durante a enfermidade, sem a presença da mulher e de seus serviços compassivos? Podemos afofar, como o faz a mulher, o travesseiro no qual o homem enfermo repousa a cabeça? Não, não podemos dar o remédio e servir o alimento como ela o faz. Existe uma ternura no toque da mulher, um leveza em seus passos, uma habilidade em suas disposições; em seu olhar irradiante há uma simpatia que nos alcança, uma simpatia que os nossos olhos necessitam.
No entanto, essa simpatia não é dever apenas da esposa; pertence igualmente ao esposo. É verdade que ele não pode cumprir em favor dela os mesmos serviços que ela pode realizar em favor dele. Mas o esposo pode fazer; e deve fazer tudo o que puder. Maridos, rogo-lhes que busquem toda habilidade e ternura de amor, para usarem em favor de sua mulher, quando ela está fraca e adoece. Vigiem ao lado de sua mulher, conversem com ela, orem por ela, acordem com ela; aflijam-se em todas as suas aflições. Nuca ouçam desatentamente os seus lamentos. E, por tudo que é sagrado no amor conjugal, suplico-lhes que nunca, nunca causem na mente de sua esposa, por meio de negligência insensível, expressões petulantes ou aparência de pessoa insatisfeita, a impressão de que a doença que destruiu a saúde dela fez o mesmo à sua afeição. Oh! poupem-na da angustiante aflição de supor que está sendo um fardo ao seu coração desapontado. A crueldade de tal homem é indescritível, e não conheço uma palavra suficientemente enfática para designá-lo. Ele está fazendo a obra de um assassino, sem punição e, em alguns casos, sem reprovação, mas nem sempre sem intenção ou sem remorso.
A simpatia deve ser exercida pelo esposo e pela esposa, não somente em referência à doença, mas também a todas as aflições. Todas as tristezas do casal devem ser compartilhadas em comum, como duas cordas em uníssono. A corda da tristeza nunca deve ser vibrada no coração de um deles, sem causar uma vibração correspondente no coração do outro. Ou como a superfície do lago corresponde ao céu: seria impossível a quietude e o brilho do sol está sobre um, enquanto há agitação e turbulência no outro. Um coração deve corresponder ao outro, e uma face, a outra.


Autor: John Angell James

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando um nenê morre, ou é abortado, para onde vai sua alma? - R.C. Sproul

A maneira como esta pergunta foi feita indica uma certa ambigüidade a respeito do relacionamento entre aborto e morte. Se a vida começa na concepção, então aborto é um tipo de morte. Se a vida não começa senão com o nascimento, então, obviamente, o aborto não envolve morte. A visão clássica do assunto é que a vida começa com a concepção. Se isto é certo, então a questão da morte da criança ou da morte pré-natal envolve a mesma resposta.
A qualquer hora que um ser humano morre antes de alcançar a idade da responsabilidade (que varia de acordo com a capacidade mental), precisamos confiar em provisões especiais da misericórdia de Deus. A maioria das igrejas crê que existe tal provisão especial da misericórdia de Deus. Esta posição não envolve a suposição que as crianças são inocentes. Davi declara que ele nasceu em pecado e foi concebido em pecado. Com isto ele estava se referindo obviamente à noção bíblica de pecado original. Pecado original não se refere ao primeiro pecado de Adão e Eva, mas ao resultado daquela transgressão inicial.
Pecado original refere-se à condição de decaídos que afeta todo ser humano. Nós não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores. Isto é, nós pecamos porque nascemos com uma natureza pecaminosa. Embora os infantes não sejam culpados de um pecado real, estão manchados com o pecado original. Por isso, insistimos em que a salvação das crianças depende não de sua suposta inocência, mas da graça de Deus.
Minha igreja em particular [ Presbiterian Church in America ] crê que os filhos de crentes, que morrem na infância, vão para o céu pela graça especial de Deus. O que acontece aos filhos dos não-crentes é deixado na esfera do mistério. Talvez haja uma provisão especial da graça de Deus para eles também. Certamente esperamos que sim. Embora tenhamos esperança nessa graça, há pouco ensino bíblico específico sobre a matéria. As palavras de Jesus: “Deixai vir a mim os pequeninos porque dos tais é o Reino dos céus” (Mt 19.14), nos dão algum consolo, mas não oferecem uma promessa categórica da salvação das crianças.

Quando o filho de Davi e Bate-Seba foi levado por Deus, Davi lamentou: “Vivendo ainda a criança jejuei e chorei porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2Sm 12.22-23).

Aqui Davi declara sua confiança de que “eu irei a ela”. É uma referência levemente velada à sua esperança de reunir-se com seu filho no futuro. Esta esperança de uma reunião futura é a esperança gloriosa de todos os pais que perderam seus filhos. É a esperança reforçada pelo ensino do Novo Testamento sobre a ressurreição. 


Fonte: 
R. C. Sproul, Surpreendido pelo sofrimento: ouça o chamado de seu Pai amoroso para suportar o sofrimento. São Paulo: Cultura Cristã, 1998. pp. 184-185.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Tipos de legalismo e seus perigos - Mark Jones

Legalismo é um assunto complicado. Não há um crente vivo no mundo que não lute com tendências legalistas. Para diagnosticar este problema, nós precisamos olhar para os diversos tipos de legalismos que encontramos na igreja e nos nossos corações a fim de entendermos o conceito. Definições claras nem sempre ajudam (como no caso de antinomianismo). Ao mesmo tempo que há uma forma de legalismo que condena a alma, há outros tipos de ideias legalistas pelas quais cristãos podem não necessariamente correr o risco de ir para o inferno, mas que são, todavia, errôneas.
Creio que é importante distinguir tipos diferentes de legalismo. Sem dúvidas, algumas das categorias abaixo entrelaçam umas com as outras, mas devemos ressaltar que cristãos, que irão para o céu, ainda lutam contra o legalismo. Em outras palavras, nós não somos legalistas de facto (em termos da nossa identidade), mas ainda temos tendências legalistas (por causa do pecado que habita em nós).
Ao mesmo tempo, jamais devemos esquecer que há um tipo maligno de legalismo condenatório da alma que levará pessoas ao inferno. Nós precisamos falar sobre este Legalismo (“L maiúsculo”) da forma como os autores do Novo Testamento falam. Somente a Fé e Somente Cristo são princípios da Reforma sobre os quais nós não podemos nos dar ao luxo de hesitarmos.
Deste modo, há duas formas principais de legalismo: Legalismo condenatório da alma e legalismo prejudicial à alma. O primeiro sempre inclui o último, mas o último não necessariamente inclui o primeiro.

1. Legalismo condenatório da alma

Você precisa fazer algo além de crer em Cristo para ser salvo. Veja o livro de Gálatas (ex. Gl 5.2). Este tipo de legalismo leva pessoas ao inferno (Mt 23.15).
Ligado a isto está o “legalismo soteriológico” pelo qual até mesmo algo bom – isto é, a lei de Deus – é usado impropriamente, e pessoas acreditam, por exemplo, que precisam de suas boas obras para compensar as suas obras más para que sejam salvas. Elas creem que são justificadas pelas obras. Todas as religiões, exceto a religião verdadeira (isto é, Cristianismo), defende esta ideia.
Estes tipos de pessoas, algumas das quais pertencem à igreja (ex. Fariseus), são geralmente bons em guardarem as suas leis feitas por homens, mas não muito boas em guardarem a lei de Deus (Mt 23).

2. Legalismo Prejudicial à Alma

A) Legalismo “O Tempo ‘Cura’”

Esta forma de legalismo não levará você ao inferno, mas prejudicará a sua alma. Como cristão, você peca, e peca frequentemente. Mas quando você enfrenta a culpa do seu pecado e coloca algo entre a sua alma culpada e o perdão gratuito de Cristo, você caiu na armadilha do legalismo prejudicial à alma.
Alguns cristãos deixarão passar um tempo antes de pensarem que eles podem ir à Deus. Outros se satisfarão com formas de penitências para ajudarem Deus a perdoar. E assim por diante. Quando pecamos, a primeira e melhor coisa que podemos fazer é nos arrepender e aceitar o perdão gratuito de Deus.

B) Legalismo Bem-Intencionado

Intimamente ligado ao legalismo prejudicial à alma, da salvação com base em obras, está o legalismo bem-intencionado. Você sabe que Deus requer que você o obedeça, e você sabe que deve possuir o fruto do Espírito, e você anseia por retidão, mas acaba buscando estas coisas com suas próprias forças, não porque você é mau, mas porque você não experimentou a graça de Deus por completo ou ao menos pediu por sua graça.
O tratado de John Owen em Romanos 8.13 não é leitura obrigatória (veja abaixo). Mas eu acho que ele tem algumas coisas bem perceptivas a dizer sobre a forma como cristãos tentam lidar impropriamente com pecado. Ele também tem alguns conselhos muito bons sobre como os cristãos devem depender do Espírito Santo para lidarem com pecado.

C) Legalismo Místico

Crentes podem submeter a si mesmos e a outros debaixo de uma lei que Deus nunca os submeteu. Eles falam “Deus me revelou…” não porque as escrituras deram um mandamento, mas por causa de um sentimento ou “voz” nebulosos.
Imagine que Deus tenha dito a um rapaz para casar com certa moça. Se este é realmente o caso, não estará a moça obrigada então, a obedecer o Senhor porque o jovem rapaz ouviu do Senhor que ele teria que se casar com ela?
Pessoas involuntariamente podem fazer de Deus um legalista quando afirmam que ele lhes disse para fazer algo específico.

D) Legalismo da Criação de Filhos

A forma como vemos a maneira de outros pais criarem seus filhos, até mesmo nosso próprio cônjuge, pode ser legalista. As altas expectativas que temos para os nossos filhos quando o nosso próprio exemplo é tão deplorável, muitas vezes, revela um espírito legalista.
Nós queremos crianças obedientes (e com razão), mas nós produzimos moralismo nos nossos filhos. Ele podem ter corações frios e duros porque nós nunca verdadeiramente fomos à raiz do problema. E eles não sabem o que é realmente arrependimento porque, com frequência, nós não nos arrependemos publicamente das nossas próprias falhas.
Além disso, coloque juntas numa sala um monte da mães ou que têm crianças pequenas, ou que terão um filho em breve, e você rapidamente encontrará tantas opiniões (talvez mais?) sobre a criação correta de filhos quanto o número de mães na sala.

E) Legalismo Adiáfora

Esta é a área em que Deus nos concedeu liberdade em certas questões. Não há mandamento claro dado na palavra de Deus acerca de certas coisas se nós podemos praticá-las ou não. A Confissão de Fé de Westminster tem uma seção excelente a respeito disto no capítulo 20:1-3 (ver também 1 Co 8-11.1; Rm 14).
Pessoas podem ir ao céu (isto é, não é condenatória à alma) enquanto inventam uma regra onde Deus não criou. Há coisas indiferentes (adiáfora), mas até mesmo nestas questões indiferentes nós ainda estamos atados ao princípio encontrado em 1 Co 10.31 e Rm 14.23.
Assim, há cristãos que creem que é necessariamente pecado escutar músicas de rock ou de rap. Há outros que pensam que é pecado não dar educação domiciliar aos filhos. Ainda, há outros que denunciam o Natal como um feriado pagão, o qual não deve ser celebrado, de forma alguma, por cristãos. E outros pensam que é errado beber bebida alcóolica. Há até mesmo seminários cristãos que adotam essa visão, o que é um pouco estranho, porque seminários são lugares onde pessoas vão para aprender boa teologia, e não teologia ruim!
Sugerir, então, que cristãos são obrigados a dar educação domiciliar aos filhos é uma forma de legalismo. Aqueles que afirmam tais coisas não são aqueles que estão dizendo que educação domiciliar é melhor para a sua família, mas aqueles que pensam que é errado (pecado) mandar os seus filhos à uma escola pública.

F) Legalismo teologicamente mal-informado

Aqui, temos que reconhecer que podemos ter um argumento bíblico bastante sólido no que diz respeito a nossa preocupação, mas ainda podemos estar equivocados. Pegue, por exemplo, o véu (1 Co 11.2-16). Se a exigência de que mulheres cubram a cabeça não é ordenado por Paulo, então exigir que mulheres cubram a cabeça é legalismo. É ordenar o que Deus não ordenou. É claro, aqueles que defendem isso não estão dizendo que uma mulher precisa cobrir a cabeça a fim de ser salva, mas requerer das mulheres o véu, se Paulo não ordenou a prática, pode ser legalismo.
O mesmo pode ser afirmado a respeito do Sábado. Eu considero o Dia do Senhor como um dia de Descanso (Shabbath), mas se a palavra do Senhor de fato não ensina a continuação do princípio do Dia de Descanso, então eu estou, nesta área específica, sendo legalista. Não me condenará ao inferno, é claro, mas eu ordenei pessoas na minha igreja a fazer ou a não fazer coisas sem o comando da palavra de Deus.
Todos nós erramos na nossa teologia e acreditamos que Deus ordena algo quando talvez ele não tenha ordenado, mas temos uma visão errônea do que as Escrituras ensinam e requerem.

G) Legalismo de orgulho eclesiástico

A mentalidade de “Nós somos a única igreja verdadeira”. Eu sei de muitas igrejas onde sua eclesiologia efetivamente excomunga a vasta maioria dos crentes. Eles creem que há somente um punhado de igrejas verdadeiras e fiéis – e, surpreendentemente, eles são uma destas. Pode ser um fato denominacional também. Se você não se casa com alguém da nossa denominação, você, basicamente, peca.
Ou, nossas igrejas são grandes e estão continuamente crescendo, então estamos portanto fazendo a coisa certa e quem é você para nos questionar sobre nossos métodos e eclesiologia. Ou, nossas igrejas são pequenas e diminuindo, então nós estamos portanto, sendo fiéis quando ninguém mais está.

H) Legalismo de autoridade autonomeada

Isto é bem sutil, e às vezes as intenções são claramente inofensivas. Aqui, uma pessoa diz algo como: “Tweet isso” ou “Você precisa ler isso”. Na realidade, alguém está me dizendo para fazer algo que Deus não me ordenou fazer.
Este legalismo de autoridade autonomeada flui de uma atitude de “Eu sou alguém a quem você deve dar ouvidos”. E se você não ler este artigo/livro você ficou de fora daquilo que eu acho que é algo que você precisa, ou pior, você me ignorou.
Eu não gosto de me sentir culpado por não ler as coisas que você acha que são importantes.

I) Legalismo dedo-duro

Estas crianças são do tipo de lei “ao pé da letra”, como em a LETRA da lei. Elas estão sempre mantendo outras crianças sob regras que poucas crianças na terra podem suportar. Elas amam dedurar as outras crianças, e possuem um espírito desprovido de graça. O problema é possivelmente um problema de criação.

Conclusão

Há muitas outras categorias e tipos de tendências legalistas entre os cristãos. A maior parte da desunião na igreja flui de ideias legalistas.
Fora o que eu disse acima, nós temos o legalismo do grupo de jovens, legalismo de Facebook (compartilhe isso se você ama Jesus), legalismo politico (cristãos votam nesse partido político), legalismo de retiro de mulheres, legalismo cultural, legalismo de conferência, legalismo de festa de aniversário, etc.
Se o antinomianismo é difícil de identificar, definir, e diagnosticar – e eu tenho tentado argumentar que há formas sutis de antinomianismo, em oposição à forma grosseira de antinomianismo “contra a lei de Deus” – eu creio que legalismo pode ser ainda mais complicado. Eu possuo ambas as tendências antinomiana e legalista. O único problema é: Identificar minhas tendências legalistas é bem mais difícil do que identificar minhas tendências antinomianas. Por quê? Porque nós amamos embrulhar nossos legalismos num manto de justiça própria.
E, sim, guardar a lei de Deus não é legalismo. E jamais devemos chamar obediência pela fé, pelo poder do Espírito, de legalismo. Mas ao mesmo tempo, não devemos estar inconscientes de que a observância da lei mais fácil no mundo são as leis que nós fabricamos ao invés do que Deus requer de nós na sua Palavra.
Lembre-se também de que Cristo morreu pelos nossos legalismos.

Fonte: reforma21.org

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Prática da Piedade - John Knox

"...Portanto, queridos Irmãos, se anelais a vida vindoura, por necessidade devem exercitarem-se a si mesmos no Livro do Senhor, vosso Deus. Que não haja nenhum dia que não recebais algum consolo da boca de Deus. Abram seus ouvidos, e Ele falará coisas deleitosas ao vosso coração. Não fechem seus olhos, antes com diligência contempleis que porção substanciosa vos é deixada no Testamento de vosso Pai. Que suas línguas aprendam a louvar a Sua terna bondade, em cuja, somente por misericórdia, vos chamou das trevas para a luz, da morte para a vida. Tampouco façais isto tão privadamente que não admita testemunhas. Não, irmãos, o Senhor Deus vos ordena que vocês governem suas casas em verdadeiro temor, e de acordo com a Sua Palavra. Dentro de suas casas, digo, em alguns casos, sóis bispos e reis, sua esposa, filhos e família são o vosso bispado e encargo. Disto se vos pedirá conta de quanto cuidado e diligência usastes para instruí-los no verdadeiro conhecimento de Deus, de como procurastes implantar virtudes e reprimir vícios. Portanto, digo, vocês devem fazê-los participantes da leitura, da exortação e da oração comuns, a qual deveria acontecer em cada casa pelos menos uma vez por dia. Mas, acima de tudo, queridos irmãos, procurem praticar diariamente e viver como manda a Palavra de Deus, e então vocês comprovarão que nunca ouvireis ou lerei o mesmo sem que obtenhais algum fruto. Creio que isto é o suficiente para os exercícios dentro de vossa casa."...

Extraído: John Knox - A letter of Wholesome Counsel Addressed to His Brethren in Scotland - July 7, 1556